jornalismo, cultura e a opinião que ninguém pediu

15.6.06

SUÉCIA 1 x 0 PARAGUAI


Show de bola.

12.6.06

NO JORNALISMO, O QUE VALE É A REPORTAGEM


A revista TIME é a pioneira das semanais estilo Veja, CartaCapital, Istoé e Época. Foi criada em 1923 por dois colegas de faculdade, que tinham por objetivo fazer o resumo dos jornais da semana numa revista, 32 páginas em preto-e-branco, 18.500 exemplares. Hoje, tem o dobro de páginas e tira mais de 6 milhões de exemplares mundo afora. Foi da TIME que Veja aprendeu a misturar opiniões com fatos de forma que pudesse apresentar umas como se fossem os outros. Veja faz isso hoje, até com certo orgulho, TIME tenta se livrar desse estigma desde os anos 70.

Todo veículo tem sua opinião, às ela vezes depende mais do dono, outras mais dos jornalistas que o comandam. Sobre o efeito dessa opinião sobre a opinião de seus leitores, vale reproduzir trechos da carta de despedida do editor-chefe da TIME, Jim Kelly, que esteve no cargo por seis anos (tradução livre e permissiva):

(...) “Nós não entendemos os tempos em que vivemos; tudo o que podemos fazer em tempos de grande agitação é trabalhar para dar sentido ao que acontece à nossa volta. Eu sempre pensei nos leitores da TIME como uma comunidade – uma comunidade de cidadãos que podem ter suas diferenças políticas, mas que são intensamente curiosos e que acreditam na reportagem que seja profunda, perspicaz e honesta sobre o assunto em pauta. O compromisso da TIME é encontrar sentido no mundo para seus leitores, e essa confiança é nosso bem mais valioso.

“Lendo a coletânea de colunas de Daniel Okrent para o New York Times, me deparei com essa frase de Daniel Patrick Moynihan: “todos têm direito à sua própria opinião, mas não a seus próprios fatos”. TIME valoriza opiniões inteligentes, precisas e divergentes, mas é de fundamental importância que o leitor possa fiar-se em nosso relato. Você pode ter discordado de nossa interpretação dos fatos, mas trabalhamos duro para lhe dar os fatos de maneira correta. (...)

“Um de meus predecessores me disse uma vez que, em semanas de grande tumulto, às vezes a coisa mais esperta que um editor pode fazer, se ele tiver a sorte de estar cercado de jornalistas talentosos e compromissados, é sair de seu caminho.

“Eu saí do caminho deles.”

Na ilustração acima, uma das capas produzidas por Jim Kelly, sem manchete, título, nem chamada. Só a imagem e a data: 11 de setembro de 2001.

SECRETÁRIO DE SEGURANÇA DE SÃO PAULO ESTÁ SE ACHANDO. MESMO DEPOIS DO PCC.



Saulo de Castro Abreu Filho é secretário de Segurança Pública de São Paulo (o que aparece à esquerda nas fotos acima). Quem manda nas polícias civil e militar do estado. Até pouco tempo, era considerado o candidato natural do PSDB para disputar o governo de São Paulo. Foi um dos integrantes do governo que menos apareceu durante os ataques do PCC em São Paulo. Disse que o secretário de Administração Penitenciária, Nagashi Furukawa, “despirocou” ao ter que lidar com os presos paulistas. Foi quem bloqueou a divulgação dos nomes das 122 pessoas mortas pela polícia de SP entre os dias 12 e 19 de maio.

No dia 07 de junho, foi convocado à Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo para falar da redução das verbas na sua secretaria e sobre os ataques do PCC. Na platéia, mais de 70 policiais. Do lado de fora, 40 viaturas. Isso num dia em que se procuravam 61 presos que fugiram da cadeia de Franco da Rocha.

Num momento em que Saulo falava aos policiais, que aplaudiam o secretário e vaiavam os deputados, teve o microfone tomado das mãos pelo presidente da mesa, o deputado petista Vanderlei Siraque (fotos). “O bicho vai pegar lá fora”, respondeu Saulo. Os deputados lhe perguntaram se ele sabia com antecedência dos ataques do PCC e sobre as 122 pessoas que a polícia matou em represália. Saulo disse que tem a responsabilidade de não debater publicamente as investigações policiais. Mas garantiu que os responsáveis pelos ataques ou estavam presos ou estavam mortos. Pediu para ir embora, porque “tinha mais o que fazer”.


Leia aqui um artigo devastador do jornalista Luis Nassif contra Saulo. Segundo Nassif, Saulo de Castro não se preocupou em combater o crime organizado, preferindo lotar as prisões de punguistas para aumentar as estatísticas de sua secretaria. Deu mais munição a Marcola e ao PCC.

10.6.06

PROTESTOS PACÍFICOS

ACM QUER OS MILITARES PONDO ORDEM NA CASA

O vandalismo promovido pelo MLST no Congresso fez ACM ter saudades de 1964. Quer as tropas na rua de novo, antes que Lula se reeleja:

- Onde estão as Forças Armadas? Elas não podem ficar caladas. Esses comandantes estão obedecendo a um subversivo. Quero dizer neste instante, aos comandantes militares, não ao ministro da Defesa, que reajam enquanto é tempo, antes que o Brasil caia na desgraça de uma ditadura sindical, presidida pelo homem mais corrupto que já chegou ao governo da República.

Toninho Malvadeza botou os dentes pra fora. Chamou Aldo Rebelo de covarde por não ter permitido a entrada da PM no Congresso e acusou a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) de não estar espionando devidamente os movimentos sem-terra. Disse que prefere ver o Congresso fechado do que à mercê de desordeiros.

Lula está a quatro meses de se reeleger, se tudo continuar como está. Por isso, ACM precisa de uma revolução como a de 1964 para impedir isso, já que seu candidato não decola, não aparece e não disse nada de relevante até agora. Observe-se que ACM inclusive usa os mesmos termos e argumentos para defender um novo levante militar:

Chamou Lula de “subversivo”

Disse que o Brasil está ameaçado de viver uma “ditadura sindical”

Deixou claro que sua mensagem se destinava aos generais, almirantes e brigadeiros, não ao Ministro da Defesa, que é chefe de todos os outros, mas está subordinado a Lula. Em linguagem militar, pediu um motim.

Quer a arapongagem do governo em cima dos sem-terra, como o SNI fazia com os comunistas de antigamente

Do jeito que vai, prefere ver o Congresso fechado


Há se de lembrar que a expressão mais usada nesta semana pela imprensa para descrever o vandalismo no Congresso foi “ameaça à democracia”. Teve depredação, porradaria e seguranças feridos (um deles gravemente, com uma pedrada na cabeça). 42 líderes do movimento estão em cana. Mas ninguém tentou fechar o Congresso, fazer revolução ou tomar as ruas de assalto. Quem está fazendo isso é ACM, um dos mais influentes líderes políticos da última ditadura a qual o país foi submetido.

9.6.06

TSE VOLTA ATRÁS NA SUA MOLECAGEM

Parecia palhaçada; e era. A nova interpretação da regra da verticalização foi derrubada ontem pelo Tribunal Superior Eleitoral. Dois dias depois do excelentíssimo ministro Marco Aurélio de Mello anunciar que não ia mais permitir concubinato, só casamento, nas eleições deste ano, sua excelência voltou atrás. Recebeu uma visita dos não menos excelentíssimos senadores José Sarney, ACM e Renan Calheiros, confabulou com seus colegas e saiu com a desculpa que a verticalização devia voltar a ser como era antes por questões de “segurança jurídica”.

Ou seja, reconheceu que fez uma lambança geral com a nova interpretação da lei, que isso ia causar uma zorra sem fim a quatro meses da eleição e no mês da Copa do Mundo, e aliviou a barra dos políticos que iam ter que refazer todo o seu xadrez eleitoral. Na terça, Marco Aurélio acreditava que estava moralizando a eleição (diz-se por aí que na verdade fez isso a pedido de Nelson Jobim, que queria ser vice de Lula pelo PMDB), mas na verdade fez uma molecagem que ia custar caro aos donos do poder. E, no Brasil, o poder vale muito mais do que a lei ou a moralização dela.

8.6.06

ACABA BLOQUEIO DE CELULARES EM SP

O bloqueio do sinal de celulares em volta dos presídios paulistas acaba hoje. Após os ataques do PCC, coordenados via celular, o sinal foi bloqueado na área em volta dos presídios de Presidente Venceslau, Araraquara, Iaras, Avaré e Franco da Rocha, por meio de decisão juducial, que durou 20 dias. O prazo acabou, e o juiz Alex Tadeu Zilenovski decidiu não manter o bloqueio, porque a responsabilidade de controlar os celulares nos presídios é do poder Executivo, não do Judiciário. Que o governo se vire para controlar a entrada de celulares nos presídios.


Como há mais de cinco anos os governos estaduais e federal estudam uma medida de bloquear os sinais dentro dos presídios, e não saíram da estaca zero, o que eles fizeram foi obrigar as operadoras a interromper o sinal das torres próximas aos presídios. Assim, não só os presídios, mas boa parte dessas cidades e de seus trabalhadores ficaram sem poder usar o celular. O recado do juiz Zilenovski foi claro: se a Secretaria de Segurança Pública quer impedir o uso de celulares nos presídios, que faça o seu trabalho, e não venha encher o saco da população.

CONGRESSO PAGA O PREÇO DE SUA DESMORALIZAÇÃO

O dia 06/06/06 foi um dia de cão para os parlamentares. Primeiro, a invasão bárbara e o quebra-quebra promovido pelo MLST, dissidência radical do MST. Depois, o Tribunal Superior Eleitoral avisa que a verticalização foi radicalizada: quem não tem candidato à presidência não pode se coligar nas eleições estaduais com partidos que o tenham. O MLST e o TSE fizeram isso com os políticos porque podem. Eles merecem apanhar, não importa de quem, nem onde, nem como.
Os líderes do MLST que armaram o quebra-quebra são velhos conhecidos dos doutores de terno que circulam no parlamento. Bruno Maranhão, velhinho de 69 anos, é o líder do movimento, e recebe salário por isso. Filho de usineiros pernambucanos, costumava arrumar brigas nas festas da sociedade recifense, e hoje mora num luxuoso apartamento em Recife – o prédio é daqueles de um apartamento por andar. Era até ontem “secretário nacional de movimentos populares” do PT.

Perdeu o cargo, mas não deve ser expulso do PT. Com que cara vão expulsa-lo, já que nenhum mensaleiro foi sequer investigado pelo partido? Para Humberto Costa, ex-ministro da Saúde e candidato do PT ao governo de Pernambuco, seu companheiro conterrâneo apenas “perdeu o controle” dos manifestantes. 507 deles estão presos na Papuda. Entraram no movimento querendo ganhar um lote, vieram à Brasília achando que iam encontrar o Lula, receberam instruções precisas de arapongas que estudaram a ação e viraram vândalos de primeira hora. Infelizmente, não conseguiram esbofetear nenhum político.

A polícia vai investigar em separado 11 pessoas, consideradas líderes da invasão ou que foram identificadas praticando agressões diretas, como o garoto de 23 anos que atirou uma pedra na cabeça de um segurança e a moça que destruiu terminais eletrônicas armada de uma pedra das grandes, amarrada a um arame – uma éspécia de boleadeira pré-histórica. Os dois moram com os pais, em casa própria.
Do outro lado, o presidente do TSE, Marco Aurélio de Mello, interpretou a lei eleitoral – redigida pelos próprios parlamentares – e explicou a eles a nova regra da verticalização. “Agora o que tem que haver é casamento. Antes, se permitia o concubinato, que é condenável”, explicou Marco Aurélio à TV, com o sorriso de quem sabe que acabou de aprontar o maior rebuliço.

Os políticos estão em polvorosa. O PFL não sabe se continua apoiando o PSDB, o PMDB agora vai ter que correr para apoiar alguém, ou Lula ou Alckmin – antes, queriam ficar de fora, ganhar apoio dos dois candidatos nos estados e depois ficar do lado de quem ganhou. Agora, os doutores refazem a matemática das alianças e correm ao TSE pedindo maiores esclarecimento. Isso a quatro meses da eleição e às vésperas da Copa do Mundo. Parece palhaçada, e é: o Congresso já aprovou, no início do ano, lei que derruba a verticalização para 2010.


O Congresso é a Casa-da-Mãe-Joana, onde vale tudo. Teve mensalão, sanguessugas, propina de dono de restaurante, e ninguém foi em cana. Assim, não dá para exigir respeito de ninguém, nem dos radicais nem do Marco Aurélio de Mello.

30.5.06

VEJA vs DANTAS: MORREU O ASSUNTO

Nenhum veículo de comunicação repercutiu a matéria de Veja da última semana. Na reportagem, o banqueiro Daniel Dantas fez um acordo com o ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, e avisou: “se eu descer, levo junto PFL, PSDB e PT”. Ministro e banqueiro negaram o acordo, e ficou por isso mesmo.

Se a imprensa em bloco acredita na versão dos dois, porque não acusam Veja de mentir descaradamente? Veja publicou um dossiê com contas de Lula no exterior, e diz que foi DD quem repassou. O banqueiro nega, mas não processa a revista. Veja mantém sua versão, e distribui novas acusações. E ninguém diz nada, fica o dito pelo não-dito.

Pode ser que os jornais, TVs, revistas e rádios estejam aplicando a Lei de Franklin: “jornalista não é notícia”. Pode ser que todos também tenham o rabo preso com Daniel Dantas. O fato é que Veja publicou um dossiê com contas de Lula no exterior. Sendo ele falso ou verdadeiro, importa – e muito – saber quem o fabricou. Ou foi Dantas ou foi Veja.


Outro fato: o jornal Correio Braziliense tem uma “lista branca”. São pessoas que o jornal e seus jornalistas não podem falar mal. Entre eles estão Joaquim Roriz, Maurício Corrêa e Daniel Dantas.

GRUPOS DE EXTERMÍNIO MANDAM BALA EM SP

Saiu uma análise de 28 cadáveres mortos pela polícia paulista na semana retrasada, em represália aos ataques do PCC. No total, a polícia matou 110 pessoas. A Defensoria Pública de SP checou 28 laudos do IML, e conferiu que 22 deles foram mortos com tiros dados de cima para baixo – o que indica que a pessoa foi morta quando estava de joelhos ou deitado. Na média, cada um tomou três tiros.

A Ouvidoria da Polícia Civil de São Paulo investiga outras nove chacinas, com um saldo de 27 mortes. O ouvidor Antonio Funari Filho disse não haver dúvidas da atuação de grupos de extermínio. Dos 27 mortos, 12 não tinham passagem pela polícia e 11 levaram tiros na cabeça e nas costas. Os assassinos usavam máscaras e capuzes.

Nos ataques do PCC, 46 policiais foram assassinados, alguns com até 19 tiros. Pode-se considerar que a reação foi à altura, e que a polícia tinha que matar mesmo. Em editorial, o jornal Estado de S. Paulo defendeu a Lei de Talião, aquela do “olho por olho, dente por dente”. Isso é uma opinião. Há outras, e o debate é sempre válido.


O que não pode é jogar os fatos embaixo do tapete, fingir que execuções policiais não são nada demais. O trabalho feito pelas comissões de direitos humanos, Ministério Público e Defensoria Pública merece todo o respeito e todo apoio. É esse trabalho que vai ajudar a entender o que a Secretaria de Segurança Pública quis dizer com “mortes preventivas”.

28.5.06

AS PROPOSTAS DE HELOÍSA HELENA


Heloísa Helena será candidata a presidente, pelo PSOL (Partido Socialismo e Liberdade). Seu vice será o professor César Benjamin, também ex-petista à esquerda de Lula e Dirceu. Para os 22% de eleitores ainda indecisos, seguem abaixo as principais propostas da chapa, que já tem o apoio do PSTU (Partido Socialista dos Trabalhadores Unificados). Para quem achou que o primeiro mandato de Lula foi muito mole com a elite branca, Heloísa Helena propõe ir mais longe:

Redução da jornada de trabalho sem corte de salários

Plebiscito sobre pagamento da dívida externa

Possibilidade de revogar mandatos de políticos eleitos

Fim do foro privilegiado de políticos

Financiamento público de campanha, com tempo de TV igual para todos

Possibilidade de candidaturas independentes, desfiliadas de partidos

Eleição de dirigentes de empresas estatais

Quebra de sigilo bancário automática para políticos eleitos e donos de empresas contratadas pela administração pública

Vale também citar a primeira frase do programa de governo da candidata: "a democracia brasileira é uma falácia".

A IMPRENSA NÃO GOSTA DE POPULISTAS. E NEM DE POVO.

Populista. Nunca foi tão fácil. Repita você também: populista. O adjetivo está na moda na imprensa brasileira. Preferencialmente nas reportagens sobre a Bolívia e seu presidente, Evo Morales. Nacionalização de refinarias? Populismo. Expropriação de terras dos brasileiros? Populismo. Corte de impostos? Populismo.


O termo está tão entronizado na imprensa, que pode ser usado sem explicações. Se a matéria for sobre Evo Morales ou Hugo Chávez, pode usar sem preocupação. Afinal, todo mundo está fazendo o mesmo. Hoje, “populista” é ofensa tão grave – e fácil, porque não quer dizer nada - quanto “neoliberal” foi quando FHC estava no poder.

Segundo a wikipedia, o populismo se caracteriza pela ligação direta que um governante tem com o povo, sem intermediação de partidos ou instituições. Para quem conhece o termo só dos jornais, pode-se pensar que populismo são medidas irresponsáveis para alegrar o povão, medidas eleitoreiras, enfim, medidas de esquerda. Populismo é governar para o povão – e isso é perigosíssimo. Uma ameaça que a imprensa, guardiã das instituições, deve combater diariamente.

E Lula? Lula é populista. Bolsa-Família, aumento do salário mínimo, corte de impostos para o cimento e o arroz, tudo isso atende só ao povão. Além disso, sua imagem é maior que a do seu partido ou que suas idéias e propostas. E por que não é chamado de populista da mesma forma que Morales e Chávez? Será porque paga juros de 15% ao ano?

Serviço: grande artigo do professor José Luís Fiori sobre como países de diversos continentes estão adotando medidas de valorizar suas reservas naturais frente às empresas que as exploram – como fizeram Morales e Chávez. Lá fora, isso é nacionalismo. Aqui, é populismo.

27.5.06

VEJA USA DANIEL DANTAS CONTRA LULA

Veja quer derrubar Lula, e aposta nos segredos que Daniel Dantas esconde. A revista parece acreditar que o banqueiro do Opportunity é o caminho mais rápido para desmoralizar Lula em sua campanha pela reeleição. Por isso, caminhou junto com DD trocando informações há pelo menos seis meses. Mas agora detonou a parceria e pôs o banqueiro na berlinda, na aposta que a pressão o force a abrir sua caixa-preta contra o PT. Para isso, fecha o cerco a qualquer acordo que o banqueiro possa fazer para ficar bem com o governo.

Há duas semanas, a revista revelou que Dantas possuía um dossiê com supostas contas de petistas no exterior, entre eles Lula. Na semana passada, contou que Dantas e Tomaz Bastos se reuniram em Brasília para tratar de uma trégua. Nesta semana, o repórter Policarpo Júnior conta detalhes da reunião. A história é nitroglicerina pura:

O encontro foi na casa do senador Heráclito Fortes, do PFL do Piauí e notório mensageiro de Dantas no Congresso. Além dele, estavam também presentes os deputados petistas José Eduardo Cardoso e Sigmaringa Seixas. Os dois também tem contatos de longa data com DD. O encontro serviu para negociar a ida do banqueiro ao Congresso. A CPI dos Bingos queria chamá-lo a depor, para explicar a história das contas no exterior. Bastos, em nome do governo, negociou para que ele fosse convidado para depor na Comissão de Constituição e Justiça no Senado, onde seria mais bem-recebido e bem-tratado. Foi o que de fato aconteceu. O banqueiro vai à CCJ no dia 7 de junho.

Na reunião, depois que Bastos foi embora, DD ameaçou, dedo em riste:

- Que cumpram comigo o que foi tratado. Eu não afundo só. Se eu descer, levo junto PFL, PSDB e PT.

O ministro da Justiça e o banqueiro investigado pela Polícia Federal dizem a mesma coisa sobre o encontro: DD negou que tivesse passado o dossiê das contas de petistas à Veja, Bastos ficou de avisar ao presidente. E só.

Veja arriscou-se publicando um dossiê sem nenhuma comprovação, mas conseguiu expor Dantas e amedrontar o PT. Parece estar na pista certa. Até porque se DD não entregou o dossiê à Veja, deveria processar a revista por mentir descaradamente há três semanas. Por que não o fez? Taí uma boa pergunta a ser feita ao banqueiro. Até agora, quem está processando a revista é Lula.

Até mesmo a CartaCapital, que apóia Lula, mas quer ver Dantas na cadeia, traz na capa uma matéria denunciando o conluio entre DD e o PT. CartaCapital cita uma fala de um ministro do governo, não identificado:

- O medo do PT tem nome. É Daniel Dantas.

26.5.06

AMEAÇA À DEMOCRACIA: NINGUÉM FOI EM CANA

Jornalistas se acham guardiões das instituições. Se colocam nesse papel quando a ameaça vem do povo. Um exemplo foi o comentário do Merval Pereira na rádio CBN. Sobre o deboche que o advogado Sergio Wesley fez no Congresso ontem ("aqui, malandragem a gente aprende rápido"), Merval disse que as cartas dos leitores nos jornais mostram apoio à fala do advogado. Denunciou o perigo do povo não acreditar mais nos picaretas de sempre: "isso é gravíssimo, uma ameaça à democracia". Continuou: "temos que pensar formas de arrumar isso na próxima legislatura".

Caro Merval, não precisa esperar a eleição: basta alguém ir em cana. Francenildo, o caseiro que dedurou Palocci, tinha 30 mil reais na conta e foi investigado por lavagem de dinheiro. Vossa Excelência Vadão Gomes recebeu mais de 3 milhões de Marcos Valério (sem nota fiscal, sem declaração na Receita) e continua exercendo suas funções de deputado. Se estivesse na cadeia, nossas instituições mereceriam mais respeito.

Há dois meses o procurador-geral da República apresentou denúncia contra os 40 ladrões do mensalão. Até hoje, os acusados nem foram notificados. Formalmente, não são nem acusados de nada. Podem viajar para onde quiserem. Zé Dirceu não recebeu sua notificação porque a Justiça não sabe onde ele mora. Na lista telefônica tem. É em São Paulo, na Vila Clementino, Rua Bacelar, 212, ap 71.

O juiz Joaquim Barbosa, do Supremo Tribunal Federal, deu entrevista ontem sobre o processo do mensalão, que está sob sua responsabilidade. Segundo ele, o procurador-geral pediu prisão preventina de alguns dos 40 ladrões. Mas o magistrado federal negou todas. Segundo ele, não há motivos para isso. Não ocorre à excelência que, enquanto continuam soltos, Delúbio Soares e Marcos Valério podem destruir provas, aliciar testemunhas ou simplesmente continuar a distribuir dinheiro não-contabilizado.

Um belo combate à desdemocratização do Brasil seria a Polícia Federal apreender todos os computadores de Marcos Valério e da sede do PT. Outro seria deixar Jorge Mattoso, ex-presidente da Caixa Econômica Federal, dormir uma noite no xadrez para ver se ele conta como foi a quebra de sigilo do caseiro Francenildo (não ia ser tão ruim, afinal ele tem direito a prisão especial). Mais um seria instaurar um inquérito policial contra Severino Cavalcanti por corrupção ativa. Depois que ele renunciou, ninguém mais o incomodou. Deve se reeleger em 2006.

25.5.06

A POLÍCIA DE SÃO PAULO NÃO FAZ PRISIONEIROS. FAZ ASSASSINATOS "PREVENTIVOS".

O IML de São Paulo tem 132 cadáveres de pessoas mortas a tiros na semana passada. É o saldo da guerra da polícia contra o PCC. E mostra que nessa guerra não se faz prisioneiros. A Secretaria de Segurança Pública concordou em divulgar o nome de 79 mortos. Os que efetivamente são suspeitos de ligação com o PCC.

Detalhe importante: desses 79, 62 foram mortos em cofronto com a polícia. Os outros 17 foram "mortes preventivas" - foram denunciados por telefone e a polícia chegou lá e matou. "Morte preventiVa" é classificação da própria Secretaria. É como a "guerra preventiva", que jogou bombas em Bagdá há três anos.

O que precisa ser esclarecido:

Quantos mortos foram executados (tiro na cabeça ou na nuca)?

Quantas armas foram apreendidas nos confrontos com a polícia? Isso pode ajudar a mostrar como foram esses "confrontos".

Se alguém tem ligação com o PCC, a polícia pode matar?

Em nome de qual interesse o governo de São Paulo esconde os nomes dos outros mortos?

ADVOGADO DO PCC VAI PRESO. NÃO PELO CRIME QUE COMETEU.

Sergio Wesley da Cunha, advogado de um presidiário acusado de vender armas ao PCC, foi preso hoje na CPI do Tráfico de Armas. Ele estava lá porque comprou uma cópia de um depoimento secreto de dois delegados que investigam o PCC. Mas não foi preso por isso.

Frente a frente com o funcionário que lhe vendeu o CD, Sergio se recusou a responder várias perguntas dos deputados. O deputado Arnaldo Faria de Sá se irritou:


- O senhor aprendeu com a malandragem.

- Aqui a gente aprende rápido - respondeu Sergio.

Foi preso na hora por desacato. Foi algemado, levado pela polícia do Congresso, assinou um termo e foi liberado. Ficou assim: Sergio comprou um depoimento secreto, subornou um funcionário, mentiu na CPI e foi algemado por dizer que no Congresso tem malandragem (como se não tivesse). Vai passar mais uma noite em casa, transitando por onde quer. É muita malandragem.

O presidente da CPI, Moroni Torgan, que é ex-delegado federal, vai pedir a prisão preventina de Sergio e de Mariola, a advogada de Marcola.

LULA GANHA NO 1° TURNO

Do jeito que está hoje, Lula leva no 1o turno. A pesquisa CNT/Sensus aponta que ele tem mais votos que todos os outros candidatos juntos. Nos últimos 30 dias, Lula tirou votos de Alckmin e Garotinho. Veja na tabela abaixo quem subiu e desceu de abril a maio:


Lula ganhou três pontos percentuais, Alckmin perdeu 1,9 ponto, Garotinho perdeu 3,6 pontos e Heloísa Helena ganhou 1,8. "Nosso Guia" está com 40% das intenções de voto. Ganhou o primeiro turno em 2002 com 39,4 milhões de votos. Já tem 34,6 milhões.

Garotinho foi quem mais perdeu votos nesses 30 dias. Os mesmos em que ele protagonizou sua greve de fome de uma semana e meia. E até agora não saiu o direito de resposta dele, nem no Globo nem na Veja.

Alckmin perdeu quase dois pontos percentuais. Está com menos de 19% das intenções de voto. Serra terminou o 2o turno com 23% dos votos válidos em 2002. Mas ninguém nunca achou que Alckmin fosse mais longe que Serra. O jornalista Ricardo Noblat conta uma fofoca que rola nos bastidores do tucanato:

O PSDB decidiu ir para a eleição com o candidato reserva. Muita gente no partido já achava que Lula é imbatível, mesmo com o PT na lama, então optaram por não queimar seus principais cartuchos: Aécio Neves e José Serra. Assim, eles governam por mais quatro anos os estados de Minas Gerais e São Paulo e chegam quentes em 2010.

24.5.06

CURIOSIDADE LEVA ADVOGADA DE MARCOLA À CPI

Maria Cristina Rachado é advogada de Marcola, chefe do PCC. Mariola achou que seu cliente estaria no Congresso na quarta-feira 10 de maio. Pegou um avião para Brasília. Quando chegou aqui, viu que não teria depoimento nenhum, e como não tivesse mais o que fazer, ficou no Congresso tomando cafezinho. Encontrou Sergio Wesley da Cunha, advogado de Leandro de Carvalho, presidiário acusado de vender armas ao PCC. Sergio estava na CPI do Tráfico de Armas porque dois delegados da Polícia Civil de São Paulo, que investigam o PCC, prestaram depoimento na CPI.

O depoimento era sobre a investigação contra Leandro, e Sergio queria participar da conversa. Os delegados pediram uma sessão secreta, e se trancaram com os parlamentares numa salinha do Congresso. Como é regra numa CPI, a conversa foi gravada por um funcionário do Congresso. Enquanto o tal funcionário saía e entrava da salinha para tomar café, começou a conversar com Sergio e Maria Cristina, que esperavam do lado de fora. Sergio insistiu com o funcionário que queria o depoimento, porque na sua opinião, era um direito constitucional de seu cliente. Mariola participou da conversa porque não tinha mais o que fazer.

O funcionário, muito prestativo, saiu da sala com o depoimento. Disse que só poderia fazer cópias do CD num shopping de Brasília. Sérgio foi junto, no interesse do seu cliente. Mariola também, por “curiosidade”. Mariola pagou o táxi e o serviço de reprodução. Se despediram, e Sergio seguiu para o aeroporto. Mariola perdeu a “curiosidade” e entregou seu CD para o funcionário do Congresso. Tudo na quarta, dia 10.

Sergio admitiu ter ouvido o CD, mas não o passou a ninguém. Mariola, nem ouviu o CD. Foi a história que contaram ontem na CPI do Tráfico de Armas.

No CD, os delegados disseram que iam transferir de presídio 700 presos ligados ao PCC, inclusive Marcola, que foi para um presídio de segurança máxima. Na sexta 12, estouraram rebeliões em mais de 30 presídios paulistas e começou a matança de policiais. Há informações que o depoimento dos delegados foi transmitida para os presídios via celular, na quinta-feira dia 11.

A se acreditar nos doutores do crime, conclui-se o seguinte:

Sergio ouviu o depoimento e achou que ali não tinha nenhuma informação que interessasse ao seu cliente, afinal não tratou disso com ninguém. O trabalho de vir a Brasília e pegar o CD foi inútil.

A curiosidade de Mariola é grande, mas passa rápido.

O funcionário do Congresso acredita na livre informação e conta o que for a quem quiser ouvir. Inclusive conversas dos outros.

As rebeliões e a matança em São Paulo não tivera nada a ver com a transferência de presos do PCC. Foi outro motivo, não se sabe qual.

Se a história deles for conversa de advogado, a conclusão é outra:

De posse do CD, os dois ou um deles avisaram seus clientes. Os bandidos não gostaram dessa história da transferência e ordenaram à bandidagem que tocassem o terror em São Paulo, pra mostrar que bandido não é trouxa.

Então, resta a dúvida: na CPI, os advogados escolheram falar a verdade ou simplesmente apresentaram sua defesa?