jornalismo, cultura e a opinião que ninguém pediu

5.5.07

IRAQUE: EX-SOLDADOS LUTAM CONTRA A GUERRA



Os veteranos da guerra do Iraque foram à luta. No YouTube. A série "VideoVets" ("veteranos de guerra no vídeo") mostra depoimentos de soldados que voltaram vivos do Iraque. Acima, o depoimento de John Bruhns, sargento que estava no Iraque desde o primeiro dia da invasão. Ele, como outros soldados entrevistados, diz coisas assim:

- Eram pessoas da comunidade, não terroristas. Nos disseram que estávamos lá para libertar essas pessoas. Elas estavam atirando em nós. O tempo todo em que eu estive no Iraque, me pareceu que nós estávamos tentado controlar a violência. Nunca me pareceu que estávamos combatendo a Al-Qaeda, Bin Laden ou os responsáveis pelo 11 de setembro. A missão era muito confusa.

- Me sinto usado e desorientado pelo governo. Sinto que meu patriotismo foi usado e explorado. Meu desejo de lutar por este país foi usado e explorado. Tenho muito orgulho de meu serviço militar, mas estou desapontado com o governo civil por nos mandar num combate sem necessidade.


No site videovets.org há depoimentos de soldados e familiares; até mesmo de uma mãe que perdeu seu filho no Iraque. Ela lê uma carta que escreveu, mas nunca pôde entregar:

- Estou muito orgulhosa de você por servir a seu país, mas ao mesmo tempo eu estou ofendida e zangada por esse governo ter usado sua boa vontade, seu patriotismo e os seus valores para mandá-lo para lutar uma guerra imoral e ilegal.

São depoimentos que encontram eco somente no mundo livre da Internet. Enquanto isso, na TV aberta, Oprah Winfrey, a Hebe Camargo dos USA, recebeu em seu programa soldados americanos que voltavam para casa, depois de feridos em combate. Patriotada pura. Um deles, com a perna amputada, disse que "a pior parte" foi deixar o Iraque.

- Por quê? - perguntou Oprah.

- Porque isso é tudo que eu tenho - respondeu o jovem veterano, apontando para seus colegas.

Oprah ainda contou que vários outros jovens soldados, que ela conheceu num hospital do Texas, lhe disseram que passariam por tudo de novo, pelo seu país. E agradeceu a todos os soldados, que "arriscam suas vidas por todos nós, por mim e por vocês". Vocês quem, cara-pálida?

Peter Granato, novaiorquino e ex-combatente, dá a resposta:

- O povo americano, o povo iraquiano, as tropas... Todos nós demos tanto, nós demos a esse governo um sem-número de oportunidades de eles aparecerem com um plano viável. Eles colocaram tudo de lado. Eles têm a sua ideologia limitada e é assim que eles vão fazer as coisas. Nós não podemos mais confiar a eles as vidas de nossos soldados.

4.5.07

ARNALDO JABOR, O BOQUIRROTO



Arnaldo Jabor, vendo que a chapa ia esquentar para seu lado, depois que Arlindo Chinaglia avisou que iria processá-lo, saiu na frente e apresentou sua defesa. Em artigo publicado no Estadão, Jabor se dirige ao juiz que porventura ira julgá-lo por difamação e calúnia (em seu comentário na rádio CBN, Jabor chamou os deputados de "canalhas"):

- Irrefletidamente, escrevi "os deputados", talvez parecendo uma generalização; mas é óbvio que me referia aos autores das falsificações de notas fiscais das viagens interplanetárias, e não a todos os parlamentares.

- Quando denunciei essa fraude intergaláctica, esperava candidamente que as notas fiscais fossem conferidas e os ladrões punidos.

Jabor pede ainda que, se condenado, seja obrigado a serviços comunitários como varrer tapetes e lustrar bronzes no Congresso. Talvez o trabalho braçal sirva bem a Jabor. É impressionante que ele, a essa altura do campeonato, "irrefletidamente" chame os outros de canalhas e "candidamente" espere ser compreendido naquilo que não disse. Surpreende que suas palestras sejam compradas por eventos como a Semana do Ministério Público do RS; Encontro Latino-Americanos de Líderes de SP; Encontro das Empresas de Transporte do RJ; Congresso Brasileiro do Algodão; e o Seminário Internacional de Suinocultura. Não surpreende que ele seja o nome mais usado por esses ghost-writers de correntes de internet. Na sua boca, cabe tudo.

2.5.07

CARTA-BOMBA DO MAGO PAULO COELHO DETONA CENSURA DO REI ROBERTO CARLOS



Roberto Carlos tem garantido seu espaço na mídia não por causa da sua nova música (qual?), mas pelo seu esforço em banir das face da terra sua última biografia, escrita por Paulo César Araújo. O Rei não leu "Roberto Carlos em Detalhes" e não gostou. Acionou a editora Planeta e o autor no código penal e no código civil. Ganhou. Por acordo judicial, a editora deve recolher todos os exemplares nas livrarias; se o Rei achar algum, pode comprar que a editora reembolsa; o autor está proibido de dar entrevistas falando sobre o livro. Censura braba.

Paulo Coelho foi à luta contra o Rei e a favor do colega escritor, num artigo na Folha S. Paulo. Botou a editora Planeta, a mesma que publica seus livros, nas cordas. Quer saber se a Planeta identificou calúnia no livro ou se foi censura mesmo. Para o Mago, o Rei foi infantil.

- Não sei se vou ter as explicações que pedi. Mas não podia ficar calado, porque isso que aconteceu na 20ª Vara Criminal da Barra Funda me diz respeito, já que desrespeita minha profissão de escritor - escreveu Paulo Coelho.

Para censurar seu próprio passado, Roberto Carlos alegou invasão de privacidade, ofensa à honra e uso indevido da imagem. Resta à editora Planeta (multinacional espanhola recém-instalada no Brasil) explicar porque desistiu de brigar pelo livro e pelo autor.

Para saber mais, leia a reportagem da Folha.

30.4.07

OUÇA NO VOLUME MÁXIMO



Os Red Hot Chili Peppers encaram a responsa e quebram tudo nesse cover do maior guitarrista do mundo, Jimi Hendrix: FIRE!

Pra quê tanto Rock n´Roll? Veja a gatinha abaixo e vc conhecerá a resposta.

29.4.07

ATUAÇÃO DO CONAR DISPENSA A DA CENSURA

"Você não vai mais conseguir viver sem emoção". Não se você comprar o novo Fiat Palio 2008, de acordo com três propagandas que a Fiat acabou de tirar do ar. Tirou do ar seguindo recomendação do Conar, Conselho de Auto-Regulamentação Publicitária. Segundo reclamação enviada e aceita pelo Conar, a propaganda estimula a direção em alta velocidade. Sabe aqueles passeios de buggy na areia em que o condutor sempre pergunta: "com emoção ou sem emoção"? Para os publicitários da Leo Burnett (agência responsável pela campanha), "adrenalina" é o motor 1.8, com 115 cavalos. Veja aqui o site do carro.

A surpresa aqui não é associar velocidade ao volante à emoção. Publicitários fazem isso, é quase vicio profissional. Muitos ainda vão fazer. A surpresa é a influência do Conar sobre a suspensão dos anúncios, dispensando ações judiciais ou decretos governamentais. O Conar é uma entidade única no Brasil, em que profissionais, agências e veículos pensam rumos e limites para o mercado publicitário. Cada vez que o Conar mostra sua força, enfraquece a necessidade de se fazer isso por meio do Estado, seja por meio de censura, seja por meio de comissões de ONGs. Se a ANJ (Associação Nacional dos Jornais), Abert (Associação Brasileira das Emissoras de Rádio e TV) ou mesmo a Fenaj (Federação Nacional dos Jornalistas) fizessem algo parecido, talvez o governo Lula não tivesse tido a idéia de criar o Conselho Federal de Jornalismo.

Dia 3 de maio comemora-se o Dia Mundial da Liberdade de Imprensa. Liberdade que, como todas as outras, tem que ser conquistada. Ainda mais no Brasil, onde repórteres são espancados e processados; e jornais ainda são previamente proibidos de tratar de certos assuntos por decisões judiciais.

27.4.07

ARNALDO vs. ARLINDO

Arnaldo Jabor já foi de esquerda. Da festiva, é claro. Hoje, abandonou a carreira de cineasta e vive de comentar a política brasileira nas organizações Globo. Agora provocou a ira do presidente da Câmara dos Deputados, Arlindo Chinaglia. Esse está com as garras de fora. Conseguiu seu cargo embalado pela promessa que ia reajustar o salário das nossas excelências em 90%. E está de olho na "imagem" da casa. Arlindo quer contratar uma advocacia-geral da Cãmara (para defendê-la não se sabe de quem), mandou a sala de imprensa para um prédio anexo bem longe do plenário e agora quer processar Arnaldo pelos seus comentários. Frases de seu discurso no plenário:

- Os ataques chegaram ao limite do inadmissível. E como é inadmissível, vamos, em nome da casa, processar o jornalista Arnaldo Jabor.

- Não queremos compaixão com o erro, mas queremos respeito à democracia.


O que fez Arlindo chegar ao limite do inadmissível foram essas frases proferidas por Arnaldo, na rádio CBN:

- Quando é que vão prender esses canalhas? Ah, eu esqueci. Eles têm imunidade, têm foro privilegiado. É isso, aí, amigos otários como eu.

Arnaldo comentava como os "canalhas" gastaram 1 milhão de litros de gasolina pagos pelo Erário, o que seria suficiente para dar 250 voltas no planeta Terra, em apenas dois meses.

Os "canalhas" aplaudiram de pé a iniciativa de Arlindo.

Arnaldo ainda não se pronunciou, mas sabe-se que ele anda com a língua solta mesmo. Em outro comentário na rádio CBN, retomando sua vocação de crítico de cinema, avaliou o filme "300 de Esparta":

-Uma bosta.

25.4.07

READY TO ROCK N´ROLL



O primeiro, único, verdadeiro e eterno Rei do Rock n´Roll, Elvis Presley, não morreu. Está vivo e passa bem. Veja a energia do garoto em 1956, arrasando no clássico do mestre Little Richard: Ready Teddy.

Ouça no volume máximo.

24.4.07

E OS ALOPRADOS DO PT? NADA!



O TSE (Tribunal Superior Eleitoral) decidiu que não houve crime eleitoral na tentativa de compra do dossiê dos Vedoin. Lembra do caso? Em 16 de setembro de 2006, os aloprados Gedimar Passos e Valdebran Padilha, (ambos petistas de carteirinha), foram pilhados pela Polícia Federal com mais de 1,7 milhão de reais em dinheiro vivo. A suspeita é que eles estariam comprando um dossiê dos irmãos Vedoin sobre a participação de José Serra na compra de ambulâncias superfaturadas pelo Ministério da Saúde. Foi isso.

Uma vez presos (a foto acima mostra a prisão de Gedimar), constatou-se que carregar dinheiro não era crime. Também não era crime reunir vídeos contra o candidato José Serra. Aí o PSDB e o PFL recorreram ao TSE, dizendo que a campanha de Lula abusou do seu poder econômico e político.

Acontece que o TSE decidiu que os aloprados do PT não faziam parte da campanha de Lula, por isso uma coisa não tinha a ver com a outra. Então, ficou assim: os aloprados não tinham nada a ver com Lula, nem cometeram crime por carregar dinheiro vivo, nem por comprar o dossiê - logo, não há porquê acusá-los, logo, deixem-os em paz. O que pode parecer imoral não quer dizer que seja ilegal. Por isso os aloprados estão soltos - reunir dinheiro para comprar um vídeo não é crime.

Mas as manchetes gritam outra coisa: LULA É INOCENTADO POR DOSSIEGATE. Cuidado: Lula não foi inocentado porque não foi acusado. Houve uma representação, uma denúncia, feita pela chapa PSDB-PFL. Que foi recusada, por falta de provas. Ou seja, a oposição pediu e não levou. Cuidado com as manchetes. No final das contas, juridicamente, nada aconteceu. Nada.

23.4.07

MACONHA PARA CRIANÇAS



Saiu nos USA um livro-bomba: "It´s Just a Plant" ("É só uma planta"), livro infantil ilustrado que mostra a jornada de Jackie, uma menina de sete anos, descobrindo o mundo da maconha. Tudo começa quando Jackie pega seus pais fumando unzinho no quarto. Ela pergunta o que é, e os pais respondem: "é maconha". A partir daí, Jakie conhece um agricultor que cultiva a erva, mas não fuma. "Me deixa com sono", ele diz. Encontra-se com a malandragem local, que a ensina os codinomes do marafo: ganja, marijuana, sensimilla. Depara-se com um policial que leva todo mundo em cana, e a avisa que quem fuma, vai preso.

O livro é escrito pelo desenhista Ricardo Cortés, que defende que as crianças precisam ser informadas sobre a maconha, inclusive que ela não é para crianças, mas para adultos responsáveis. O autor usa uma epígrafe do cineasta Stanley Kubrick:

"Eu acredito que o grande erro das escolas é tentar ensinar às crianças qualquer coisa, e usando o medo como motivação. Interesse pode produzir ensinamentos numa escala em que o medo seria um traque, e o interesse, uma bomba nuclear."

Para saber mais, visite http://www.justaplant.com/

O QUE É "AFETAÇÃO"?

Segundo o Aurélio, pode ser falta de naturalidade, fingimento, falsidade, vaidade, presunção. Abaixo, um exemplo. É a resposta do jornalista Kennedy Alencar à matéria que saiu na Veja esculhambando-o por conta da confusão envolvendo Franklin Martins e Diogo Mainardi.

"Avisado por amigos, soube que a revista "Veja" dedicou uma parte generosa de sua maledicência semanal ao meu trabalho. Foram, pelo que ouvi, um editorial disfarçado de reportagem e uma coluna opinativa.

Em ambos os casos, a revista se esforça para transformar um furo jornalístico que ela mesma confirma com dias de atraso num problema para seu autor. Não sou eu que devo explicações à Justiça. Por fim, agradeço às fontes que me deram uma notícia correta e de tamanha repercussão."

Kennedy não leu a Veja, mesmo avisado por amigos. Papai Noel existe. O Brasil vai crescer 5% este ano. O Madureira vai disputar o título mundial em Tóquio. Macaco não gosta de banana. Tenha a santa paciência...

Quer ver outro exemplo? Abaixo, o repórter Britto Jr, hoje na TV Record, perde a linha e manda a entrevistada para a puta que o pariu:

AVIAÇÃO CIVIL QUER GENTE QUE CONHEÇA BRUNA SURFISTINHA, BIG BROTHER E TOM JOBIM

Quer virar Técnico em Regulação de Aviação Civil na Anac (Agência Nacional de Aviação Civil)? Então estude português, decore a legislação, leia o livro de Bruna Surfistinha, assista ao Big Brother e ouça Bossa Nova. É isso que cai na prova. Abaixo, a questão 59 do concurso:

59 - A garota de programa Bruna Surfistinha tornou-se um dos maiores sucessos do mercado literário brasileiro em 2005, com o livro:
(A) "A pessoa é para o que nasce";
(B) "O doce veneno do escorpião";
(C) "O céu de Suely";
(D) "No quarto de um motel";
(E) "Madame Satã".


Além dessa, tem que saber qual o "programa interativo" de maior audiência da TV brasileira e qual a música de Tom Jobim que é mais tocada no mundo. Isso na parte de "conhecimento específico". O salário pode chegar a 4.700 reais. Estude!

22.4.07

IT´S ONLY ROCK N´ ROLL...

Pedrada no Rock in Rio: os Kings of Leon e seu primeiro sucesso, Molly´s Chamber.

Ouça no volume máximo.

A LAPA É A LAPA, A BARRA É A BARRA


Mais uma colaboração de Elio Gaspari para o blog:

A prefeitura do Rio está aporrinhando a Lapa, santuário da renovação urbana do velho centro carioca.Sem maiores interferências do poder público, boêmios, garçons, cantores e biscateiros recuperaram aquele pedaço da cidade. Bebe-se em paz à sombra dos arcos porque naquelas ruas ninguém é louco de se meter com quem não conhece. A transformação do bairro, preservado pelo andar de baixo, fez surgir novos restaurantes, casas de espetáculos, clientela e alegria.Foi o suficiente para alguém achar que o povo estraga a paisagem. No último fim de semana, patrulhas higienistas baniram mesas da rua, churrasquinhos de gato, camelôs, comedores de fogo e vendedores de cerveja gelada no isopor. É a patuléia das ruas, marca do Rio desde os tempos coloniais.

A Lapa não tem vocação para Barra. Manuel Bandeira viveu nove anos na rua Moraes e Valle (aquela lingüeta encostada na igrejinha dos carmelitas). Em 1942, no dia em que se mudou de lá, começou a escrever a "Última Canção do Beco". Vale ouvi-lo: "(...) Beco das minhas tristezas. Não me envergonhei de ti! Foste rua de mulheres? Todas são filhas de Deus! Dantes foram carmelitas... E eras só de pobres quando, Pobre, vim morar aqui. Lapa-Lapa do Desterro-, Lapa que tanto pecais! Mas quando bate seis horas, Na primeira voz dos sinos, Como na voz que anunciava A conceição de Maria, Que graças angelicais!"

Em tempo: a ilustração acima é do desenhista francês Jano, e mostra o Arco do Teles, centro do Rio.

FRANKLIN MARTINS vs. DIOGO MAINARDI vs. KENNEDY ALENCAR vs. REINALDO AZEVEDO

Todo esse pessoal é jornalista. E está envolvido numa briga feia. O hoje ministro da propaganda e da informação Franklin Martins processou Diogo Mainardi e ganhou, em primeira instância, uma indenização de 30.000 reais. Kennedy Alencar divulgou esse resultado da contenda judicial na Folha de S. Paulo do dia 16. Mas a sentença do juiz foi dada no dia 17, mesmo dia em que Diogo e Veja apresentaram sua defesa. Ou seja, não só Kennedy sabia do resultado da sentença um dia antes, como o juiz ja havia definido sua opinião antes de receber a defesa dos acusados.

E aí a coisa fica feia. Mais do que a condenação de Mainardi, a notícia de Kennedy mostra que a decisão estava pronta antes da defesa se manifestar. Talvez Kennedy não soubesse desse detalhe, e foi usado. Se sabia, participou de uma operação imoral. Sua explicação é de que a sentença estava na internet. Não cola. De cara, põe-se sob suspeita a decisão do juiz e o interesse de divulgá-la, via Kennedy Alencar.

Franklin Martins gosta de dizer que "jornalista não é notícia". Está errado. Diogo Mainardi o transformou em notícia. Seu processo contra Mainardi virou notícia. Kennedy Alencar virou notícia. Tanto que o mérito da questão já está sendo discutido também nos blogs dos jornalistas Ricardo Noblat e Reinaldo Azevedo. Já me disse um chefe de jornal: "jornalismo é que nem salsicha: se todo mundo soubesse como é produzido, ninguém consumiria".

18.4.07

MARY JANE GOSTA DA MARIJUANA



A atriz Kirsten Dunst, a Mary Jane de Homem-Aranha 3, explanou:

"Gosto de maconha. Minha melhor amiga, Sasha, é filha de Carl Sagan, o astrônomo. Ele era o maior maconheiro do mundo e era um gênio. Eu não fumo tanto assim, mas acho ridícula a visão que os Estados Unidos têm da maconha. Se todo mundo fumasse, o mundo seria um lugar melhor."

15.4.07

JUROS ALTOS: O MERCADO GOSTA É DE DINHEIRO

Copiado da coluna de Elio Gaspari:

Ao tempo em que os tucanos cantavam, espalhou-se a crença segundo a qual uma interferência do governo na ortodoxia do Banco Central dispararia uma sucessão de renúncias na sua diretoria, espalhando descrédito no mercado. Algo como os Mosqueteiros: "um por todos e todos por um". Foram-se embora do BC dois legionários dos juros altos (Afonso Bevilaqua e Rodrigo Azevedo, ex-diretor do Credit Suisse First Boston) e não aconteceu nada.

Se o comportamento do mercado reflete juízos políticos, a saída de Bevilaqua e Azevedo foi bem recebida. Quando Bevilaqua deixou o banco, o risco Brasil estava em 196. No dia seguinte, caiu para 191. Na semana passada, depois da saída de Azevedo, foi a 156. Essa fidelidade é uma fantasia do terrorismo financeiro. O mercado gosta de dinheiro, não de diretores do BC.

O PT ACHA QUE FALAR RESOLVE TUDO



Tem muita gente (mas muita gente mesmo) no PT que acha que governar é fazer oposição: basta falar, que tudo se resolve. O ministro da Justiça, Tarso Genro, está nesse clube. Para resguardar Lula, já desafiou a lógica, a semântica e a sintaxe (pergunte a ele sobre o mensalão). Neste domingo, escreve um artigo na Folha, intitulado "Violência e Estado". Seguem trechos:

"Precisamos, para resgatar a confiança do povo no seu poder constituinte, de programas municipais, estaduais e federais, que integrem as políticas de segurança pública com as políticas sociais, e para isso é preciso, em primeiro lugar, ter 'foco' determinado (o que não significa artesanato ou micro-experiências localizadas), 'centro' em grandes áreas metropolitanas, sobre faixas etárias específicas (juventude) mais sensíveis e 'prioridade social' para setores mais atingidos pela criminalidade, face a carências culturais e econômicas."

"Essas políticas devem ser cientificamente programadas pelos entes da federação, e à medida em que abrirem perspectivas de vida para milhões de jovens, darão um novo sentido democrático ao crescimento econômico e ajudarão a relegitimar a própria repressão ao crime. As medidas de natureza puramente policial são insubstituíveis, mas elas só incidem sobre o presente imediato."

Tarso Genro diz que "precisamos" de programas que intergrem políticas, e que essas políticas "devem" ser cientificamente planejadas. Tá. Ele só esquece que quem "precisa" e "deve" é ele, ministro da Justiça e chefe da Polícia Federal. Gastou um espaço de 600 palavras no jornal de maior circulação no país. Poderia usar o tempo que levou para escrever esse artigo para escrever uma lei, uma minuta que fosse, que integrasse as polícias; ou mesmo um manifesto, dirigido aos sindicatos da categoria, que chamasse a atenção dos policiais quanto ao tal "foco" que ele quer.

Entre trabalhar e fazer proselitismo, Tarso Genro (e boa parte do PT) prefere a a segunda opção.

11.4.07

DUDE, WE ARE LOST!



LOST é a melhor série que já existiu na TV. Porque tem de tudo, em grande quantidade e na dose certa. Tem dramas pessoais. Tem grandes personagens. Tem referências pop. Tem mistério. Tem guerra. E tem a paisagem mais linda que já apareceu. E é interessante ver que trouxe duas inovações á TV americana que já estamos acostumados a ver nas novelas: episódios continuados, que não se encerram em si mesmos; e uma grande quantidade de protagonistas (são mais de dez, mais os coadjuvantes e vilões).

Não dá para resumir a história porque ninguém sabe o que está acontecendo. A primeira temporada mostrou o vôo 815 caindo numa ilha misteriosa no Oceano Pacífico, com 40 sobreviventes. O foco eram as personagens, seus dramas pessoais e como faziam para conviver uns com os outros perdidos numa ilha deserta. Nem tão deserta: a temporada termina com um outro grupo, Os Outros, raptando o menino Walt (por quê, ninguém sabe até agora).

A segunda temporada foi sobre a misteriosa escotilha que ex-paraplégico e aprendiz de guru espiritual John Locke encontrou. No meio da selva, uma escotilha cheia de aparatos teconólogicos, com um botão que, caso não fosse apertado a cada 108 minutos, seria o fim do mundo. A temporada termina com a explosão da escotilha (Locke se mostraria uma exímio detonador) e com Jack, Sawyer e a gatinha Kate capturados pelos Outros.

A terceira temporada é sobre Os Outros. Quem são as pessoas que já viviam na ilha, raptam crianças, matam adultos, fazem experiências e vivem em casas com água encanada e eletricidade? A guerra está aberta (destaque para o soldado iraquiano Sayid Jarrah), e ninguém sabe o que pode acontecer. A certeza é que haverá uma bomba no final da temporada.

E o Rodrigo Santoro, hein? É como a Gisele Bündchen, as sandálias havaianas ou o Ronaldinho Gaúcho. É a cara do Brasil lá fora. Entrou para fazer uma ponta de luxo na série, e terminou com um episódio seu, ao melhor estilo Sexta-Feira 13. Santoro e sua namorada forma enterrados vivos. Nada a ver com os mistérios da série, mas foi muito bom. Dá-lhe, brazuca!

Mas talvez a temática mais presente na série seja a segunda chance que todos temos na vida. Quando o avião caiu, todos nasceram de novo. Podem recomeçar. Com a alma lavada. Abaixo, um dos melhores momentos da série. Não porque seja relevante, não é, mas mostra como é possível se divertir sempre. O gorducho Hurley encontra uma kombi na selva, e pede ajuda a seus parceiros Charlie, Jin e Sawyer para fazê-la pegar no tranco. A música é "Road to Shamballa", da banda Three Dog Night.

10.4.07

BOMBA NELES!

Aumenta a torcida para que os USA bombardeiem o Irã. Depois que acabou a crise dos 15 militares britânicos presos em águas iraninanas (todos foram libertados sem um único arranhão), a pressão volta sobre o programa de enriquecimento de urânio. O Irã acaba de inaugurar uma série de centrífugas. URÃNIO EM ESCALA INDUSTRIAL, gritam as manchetes. O que isso quer dizer? Que, um dia, quem sabe, o Irã pode vir a desenvolver armas nucleares. Ou também usinas para geração de energia, segundo reitera o presidente Mahmoud Ahmadinejad.

É importante lembrar que só urânio não faz bomba. É preciso também construir ogivas e míssesi de longo alcance (que o Irã não tem). Mas a torcida cresce a cada dia. O último a entrar no coro foi o jornalista Reinaldo Azevedo:

"Por mais temerário e doloroso que seja, parece óbvio que o país não entende a linguagem da diplomacia. Um eventual ataque ao Irã é mais perigoso do que um Irã nuclear? Acho que não. Infelizmente".

O melhor antídoto contra o vôo desses abutres, sem dúvida, é ouvir Bob Marley. Abaixo, a palavra do velho maconheiro rastaman na voz de Erika Badu. Essa bomba sonora chama-se NO MORE TROUBLE.

1.4.07

OUÇA NO VOLUME MÁXIMO

Os The Black Crowes mandando brasa no clássico "Oh Well", da banda Fleetwood Mac. (Nunca ouviram falar? Nem eu...)

Eu sei, é só Rock n' Roll, mas eu gostcho muitcho!!!

O EIXO DO MAL ATACA: E AGORA, BUSH?


Na semana passada, 15 marinheiros ingleses foram capturados pelo governo do Irã enquanto navegavam em um bote por suas águas. Estão presos, suspeitos de espionagem. Tony Blair, parceiro de Bush na invasão do Iraque, jura por Deus que seus marinheiros estavam no mar desse país, não do Irã (os dois países dividem fronteiras).

O fato é que todo o mundo está de cabelo em pé. Afinal, o Irã é um dos países que Bush chamou de "eixo do mal", logo após os ataques do 11 de setembro. Outro era o Iraque, que já levou bomba. Há menos de um mês, multiplicavam-se na imprensa notícias sobre uma possível ação militar americana contra o Irã, uma vez que o presidente Mahmoud Ahmadinejad iniciou no país atividades de enriquecimento de urânio, o que poderia (poderia, do verbo pode não ser) ser usado para o Irã desenvolver uma bomba atômica.

Bush classificou a prisão dos marinheiros ingleses de "inaceitável" e "imperdoável". Blair disse que a Grã-Bretanha pensa em entrar numa "fase diferente" da diplomacia. De seu lado, Mahmoud Ahmadinejad quer ouvir desculpas de Blair, uma vez que os ingleses é que estão errados. Vale lembrar que em 2004 outros oito marinheiros britânicos foram presos pelo mesmo motivo, e foram libertados após pedirem desculpas na TV.

O Irã mostrou imagens de alguns dos militares presos, todos em bom estado (foto acima). Bem diferente dos presos de Guantánamo, que ninguém sabe quem são, nem em que condições estão. O jornalista Elio Gaspari lembrou do tratamento que foi dado ao brasileiro Jean Charles de Menezes em Londres, há dois anos. Jean foi executado no meio da rua com cinco tiros. "Felizmente, os iranianos não passaram a turma da Real Marinha nas armas".

Em tempo: Bush e Blair, os irmãos cara-de-pau, agora deram para dizer que estão no Iraque com autorização da ONU. Mentira da grossa. Em novembro de 2006, a ONU permitiu que as forças de coalização continuassem lá, pois o pedido veio do presidente iraquiano, Hamid Karzai (que eles mesmo botaram no poder depois de Saddam). O que eles esqueceram de dizer é que, na época da invasão, em 2003, a ONU se negou a avalizar a invasão. Que, nunca é demais lembrar, matou mais de 100.000 iraquianos em quatro anos.

22.3.07

FACES DA MORTE 2: SANGUE E PETRÓLEO NA MADRUGADA



As Armas de Destruição em Massa eram balela. Todo mundo sabia que o objetivo de Bush Jr. no Iraque era o petróleo. Quando anunciou a invasão, Bush Jr. chamou-a de Operation Iraqi Liberation (Operação de Libertação do Iraque), ou OIL - isso mesmo, OIL, petróleo em inglês. E mandou sua mensagem aos iraquianos que estavam prestes a levar bomba na cabeça: "não destruam os poços de petróleo". Nada de "protejam-se", "acalmem-se, vamos libertá-los", ou mesmo "desculpem o mau jeito". Apenas "não destruam os poços de petróleo".

O plano não era usar o petróleo iraquiano para abastecer os carros indústrias americanas, mas aumentar o preço do petróleo vendido pelas empresas americanas. Já ouviram falar em cartel? Quando Saddam era o rei do Iraque, o barril de petróleo custava 18 dólares. Hoje custa 57 dólares. Um aumento de 316%. Isso porque, desde a invasão, a produção petrolífera do Iraque caiu à metade. Quanto menor a oferta, maior a procura. E maior o preço, claro.

A renda das cinco maiores empresas petrolíferas americanas dobrou nos últimos quatro anos, chegando a 2,6 trilhões de dólares. Só a Exxon-Mobbil registrou um lucro de 10 bilhões de dólares nos últimos quatro meses.

Como se vê, Bush Jr. e sua gangue não derramaram apenas o sangue de 100.000 iraquianos e 3.200 soldados americanos. Derramaram também 2 milhões de barris de petróleo. Por dia.

TIM MAIA NÃO MORREU

Se não me avisassem, tava até agora achando que era uma música do Tim Maia, daquela época em que ele cantava em inglês. A música chama-se "Save Room", e é de um tal de John Legend. Nunca tinha ouvido falar. Mas a música é boa.


Segue um trecho traduzido (isso, o Tim Maia nunca teve coragem de escrever):

Isso pode doer só um pouquinho
O amor às vezes dói quando se faz certo
Não tenha medo de um pouquinho de dor
O prazer está do outro lado

20.3.07

FACES DA MORTE: GEORGE BUSH E O IRAQUE

Hoje completa-se quatro anos desde a primeira bomba americana jogada em Bagdá. A primeira de duzentas (estamos falando só do primeiro dia). O vídeo acima mostra apenas os primeiros meses da guerra. Sao cenas do filme Fahrenheit 9/11, de Michael Moore, lançado em 2004. Se não viu, esqueça o Big Brother e veja imediatamente.

Outra cena do filme mostra George Bush Jr., ainda em 2003, fazendo festa no porta-aviões Abraham Lincoln. Vestido como piloto de caça, é reverenciado pelas tropas, receb abraços, é festejado. Sobre a cabine principal do navio, pendura-se uma faixa que diz: "Missão Cumprida". Em lágrimas, Bush Jr. discursa:

"Meus compatriotas americanos, a maioria das operações de combate no Iraque terminou. Na batalha do Iraque, os Estados Unidos e seus aliados prevaleceram."

Após o 11 de setembro, a América apoiou Bush. Britney Spears apoiou Bush. A Fox News apoiou Bush. 90% da população americana apoiou Bush. Bem que ele avisou: "ou estão conosco, ou estao contra nós". E nomeou o "eixo do mal": Iraque, Irã e Coréia do Norte.

Bush sabe bem quem é bom e quem é mau: no dia 12 de setembro de 2001, deu instruções claras a Richard Clarke, chefe da CIA. Segundo Clarke, "de um modo bastante intimidador", Bush, Dick Cheney, Donald Rumsfels e Paul Wolfowitz queriam provas do envolvimento de Saddam Hussein. Clarke sugeriu bombardear o Afeganistão, onde estava Osama Bin Laden e a Al-Qaeda. "Vamos mandar bomba no Iraque", respondeu Donald Rumsfeld, secretário de Defesa dos Estados Unidos da América.

Em março de 2003, começou a guerra. saddam Hussein foi derrubado, preso e enforcado. Nesses quatro anos, morreram 3.200 soldados americanos. Mais do que no ataque às torres gêmeas. De uma população de 2,6 milhões de pessoas, 1,5 milhão se refugiou em países vizinhos. O número de civis iraquianos mortos varia muito. Pesquisas usadas por conservadores americanos falam em 65.000 mortes desde o início da guerra. Revistas médicas falam em 600.000.

Talvez seja melhor acreditar nos números mais altos. Se não, é melhor que nos mudemos para Bagdá. Em quatro anos, morreram no Brasil mais de 120.000 pessoas por arma de fogo.

GIRL, PUT YOUR RECORDS ON!



É mais do que eu posso aguentar
Perdão pelo bem do perdão
Algumas noites não consigo dormir
Achei que eu fosse mais forte
Quando você vai perceber, que você não precisa mais nem tentar
Faça o que você quiser
Garota, ponha seus discos pra tocar!

Você vai se encontrar
Em algum lugar, de qualquer maneira.

Com certeza, você já ouviu essa. É da gatinha Corinne Bailey Rae. Dela, tem também "Like a Star".

19.3.07

ZÉ DIRCEU, O LUTADOR INCANSÁVEL


Está dando um bafafá danado a matéria de Veja sobre a nova vida de consultor empresarial de José Dirceu. Segundo a revista, seu escritório estaria faturando 150 mil reais por mês. A matéria fala ainda da nova namorada de Dirceu, uma ex-assessora do governo. Zé não gostou e respondeu em seu blog, dizendo que Veja quer lhe caluniar e, não contente com sua cassação, quer vê-lo destruído em praça pública, cassando seu direito de trabalhar. Dirceu reafirma sua inocência no mensalão e diz que vai lutar por sua anistia.

Noves fora as velhas bravatas do ex-homem forte de Lula, vale lembrar algumas de suas frases importantes:

"São investimentos no Brasil, investimentos brasileiros lá, comércio exterior, nada extraodinário. Faço palestras, faço avaliação de conjuntura. Não faço intermediação, não faço lobby. Eu simplesmente tenho experiência e capacidade profissional." - em entrevista à Veja, detalhando suas novas atividades profissionais. Detalhe: seu único cargo de direção fora do PT foi gerente de butique no interior do Paraná.

"Eu nunca tive relação com o Gabeira, nunca tive amizade nem nada. Eu o conheci no final da década de 80, em 1989. Mal conversei com o Gabeira três, quatro vezes na vida." - em entrevista à Rolling Stone, explicando a convivência com o ex-terrorista, hoje deputado, Fernando Gabeira, que seqüestrou o embaixador americano Chares Elbrick em troca da liberdade de José Dirceu e outros presos políticos.

"Fizemos pouco? Primeiro, o Cristóvam Buarque foi ministro da Educação, então ele tem responsabilidade. Segundo, não interessa a opinião do Cristóvam Buarque, interessa a opinião do povo, que votou." - sobre Cristóvam Buarque, que disse que o governo fez pouco na área de educação. Cristóvam foi demitido devido a pressões de Dirceu, que não gostava nem um pouco das críticas que o ex-ministro da Educação fazia quanto à condução do governo.

"Não me conformo com a minha incompetência de não ter dado conta de ter resolvido esse problema. Me dói no fundo da alma." - sorrindo, sobre sua culpa no escândalo Waldomiro Diniz, assessor direto e colega de quarto de Dirceu.

"Não fui arrogante quando era ministro. Não fui" - em depoimento na CPI dos bingos, arrancando gargalhadas da platéia.

Em seu blog, quando rebate a matéria de Veja, Dirceu recebeu 168 comentários (geralmente cada post recebe entre 10 e 20). Todos a seu favor, exaltando sua luta e sua verve. Tem um tal de Pepino Breve, que escreve assim:
"Escrevo para mostrar meu reconhecimento e fazer justiça ao Dirceu, homem que dedicou sua vida inteira tentando nos proporcionar viver como cidadãos livres com toda dignidade numa nação pujante. Ele é o ícone representativo de todos estes verdadeiros heróis corajosos, honestos, desprendidos, altruístas cuja riqueza acumulada é a melhoria de vida dos trabalhadores brasileiros."

Dirceu ajudou a desgastar os conceitos de soberania nacional, democratização e luta política, de tanto falar neles para não dizer coisa alguma. Seus leitores se arriscam a desgastar os conceitos de ética, dignidade e honestidade, para falar de Dirceu.

18.3.07

LEMBRAI-VOS DE 2005

O tucanato e o PFL tiveram uma recaída de oposicionismo policial. Defendem a política de ruína econômica do Banco Central na tribuna e jogam para a arquibancada sugerindo que o futuro do país depende da criação de CPIs. A da vez quer investigar o apagão aéreo y otras cositas más ocorridas na Infraero. Tudo bem, mas está viva a memória do festival aberto em 2005. Os grão-tucanos (ajudados pelas delinqüências petistas), criaram três CPIs de nitroglicerina. Quando o fogo chegou perto de sua cerca, fizeram um acordão, puseram orégano nas pizzas, e a patuléia ficou com o papelão da embalagem. Falta sinceridade ao surto policial. Até porque o tucanato voltou a conversar com um pedaço do governo.

Copiado da coluna de Elio Gaspari de 18/03/2007

13.3.07

UM SAMURAI AO ENTARDECER DE UM MUNDO VELHO



O vídeo acima é um trecho do filme "O Samurai do Entardecer" (Tasogare Seibei, Japão, 2002). Conta a história de Seibei Iguchi, um samurai que não é mais. Viúvo, pai de duas filhas e vivendo com a mãe senil, trabalha estocando alimentos e ganha pouco. Bate o ponto no crepúsculo e vai cuidar da casa. Seus colegas no castelo o chamam de "entardecer". De guerreiro, não tem mais nada.

Na cena acima, Seibei responde a uma pergunta de sua filha:

- Papai, se eu aprender a costurar, posso fazer quimonos. De que vão me adiantar os livros de Confúcio?

- Bem - responde o pai - Costurar lhe deve ser mais útil, mas os livros lhe darão o poder de pensar. Com o poder de pensar, mesmo que mundo mude você será capaz de sobreviver.

É dessa profundidade que o filme está carregado. O Samurai do Entardecer ganhou o Oscar do Japão, e foi dirigido pelo veteraníssimo Yoji Yamada. Yamada é responsável pela franquia de cinema mais longa da história: Tora-San, com 48 continuações! Segundo Yamada, este é o seu filme de samurai. Não de grandes guerreiros que matam 100 oponentes e saem ilesos. Mas sobre o entardecer da era dos samurais, o início da era Meiji, no século XIX. Foi quando acabou o xogunato no Japão, depois de 250 anos de poder feudal, e o país voltou a ser um Império. Quando o mundo mudou.

Como todo filme de samurai, acaba com uma boa luta.

Serviço:Tem outro vídeo legal sobre a profunda tradição do cinema japonês, mostrando como os westerns até mesmo Guerra nas Estrelas copiaram suas cenas. Está em http://www.youtube.com/watch?v=cTjm7Pczq3w&mode=related&search=

E o filme todo está também no YouTube, falado em japonês com legendas em inglês, dividido em 14 partes de 9 minutos. Procure por TWILIGHT SAMURAI - [ENG SUB]

O FIM DO YOUTUBE?


O YouTube está enfrentando o maior processo de sua história. A Viacom (conglomerado de mídia que possui, entre outros, a MTV, a DreamWorks, a Paramount Pictures e a Nickelodeon) está processando o site em creca de 1 bilhão de dólares. Para se ter uma idéia do que isso representa, o YouTube foi comprado pelo Google no fim do ano passado por 1,76 bilhão de dólares. Ou seja, é um processo que, em última instância, pode fechar o YouTube.

O argumento da Viacom é o de sempre: violação de direitos autorais. O conglomerado de mídia contabilizou mais de 160.000 vídeos no YouTube que contém imagens de seus canais. A política do YouTube é de retirar do ar qualquer vídeo depois de ser notificado pelo reclamante. Afinal, o site não pode identificar automaticamente o que vai ao ar, uma vez que o conteúdo é provido pelos usuários, não pelo site. O YouTube apenas fornece espaço de internet para os vídeos.

Mas, pelo visto, a intenção da Viacom é mesmo fechar o site. Ela alega que o modelo de negócios do YouTube é "claramente ilegal e em óbvio conflito com as leis de copyright", uma vez que fatura publicidade em cima de "conteúdo não-autorizado". Se a Viacom ganhar, é mesmo o fim do YouTube. Depois, nada impede que outros abram processos idênticos. Aí pode ser a MGM, a Disney, a Rede Globo ou mesmo o Fernando vanucci, que protagonizou aquele vídeo em que aparece completamente vovozinha. E não é só o YouTube que fecha, é todo um modelo de troca de vídeos via internet. Afinal, se o YouTube for derrubado, o DailyMotion continua no ar? E quem vai ter coragem de fazer outro site de trocas de vídeos, podendo tomar um processo de 1 bilhão de dólares?

Pode ser o fim. Ou o YouTube faz como o Napster: vende conteúdos que os próprios conglomerados colocam lá. Vira uma lojinha virtual.

Quando a piranha da Cicarelli e seu namorado "homem-alga" fecharam o acesso do YouTube no Brasil, uma penca de manifestates foram fazer barulho em frente à MTV e pregaram o boicote ao canal. Foi um alvoroço. Mas a Cicarelli é só uma monga contratada pelo canal. Agora, quem ameaça o YouTube são os donos da MTV. Vale um protesto bem maior e muito mais ruidoso. A não ser que os manifestantes achem que a Cicarelli dá mais ibope que a Viacom.

10.3.07

LULA, O BOBO DE SUA PRÓPRIA CORTE


Só pode estar de sacanagem. Lula vai ao Rio e o que faz lá? Supervisiona os trabalhos da Força Nacional de Segurança? Propõr medidas para conter a escalada da criminalidade? Quetiona como está sendo investido o dinheiro remetido ao Pan (1,65 bilhão de reais, sendo que a previsão inicial de desenbolso do governo federal era de 138 milhões)? Não, ele vai ao Maracanã e joga bola com Sérgio Cabral. Faz um gol de pênalti e comemora.

Duas frases mostram a produtividade da viagem de Lula ao Rio.

Do ministro do Esporte, Orlando Silva: "Espero que o pênalti do presidente tenha marcado o ponto final da transferência de recursos para o Pan". Espera?

De Lula: "Acho totalmente infundado e absurdo imaginar que nós estamos gastando dez vezes mais". Acha?

Será que ele acha que o PAC vai emplacar? Demorou quatro anos para ele resolver esse plano. Nesse período, o Brasil cresceu 2,6% ao ano, em média. Precisa crescer 4%,5%. O próprio Lula já prometeu esse número várias vezes nos últimos anos. Será que nestes próximos quatro anos o Brasil cresce mais? O ministro Orlando Silva deve "esperar" que sim.

A minha esperança, que me fez votar em Lula em 2002, acabou bem rápido. Foram três momentos que me fizeram ver que o Lula presidente era uma só caricatura do Lula candidato, um personagem para distrair os jornais do absoluto deserto de idéias.

01. O cancelamento da viagem da equipe de governo até o foco da miséria.
em campanha, Lula sempre disse que o ministério inteiro deveria fazer uma viagem pelo Brasil real, conhecer as necessidades do brasileiro pobre do interior, ver a miséria de perto. Eleito, mandou aprontar a viagem. O porta-voz André Singer logo desanunciou-a, alegando que helicópteros e aviões não alcançavam áreas de difícil acesso. Quer conhecer a pobreza, Lula? Vai de ônibus, porra!

02. A expulsão dos "radicais" do PT.
Heloísa Helena, Babá e Luciana Genro foram expulsos do PT no seu primeiro desentendimento com o governo. Recusaram-se a apoiar a reforma da previdência, fiéis que foram ao programa do partido. De cara lavada, os ex-guerrilheiros José Genoíno e José Dirceu comandaram a decapitação. "Ou voces estão do nosso lado ou contra nós", como diria George Bush. Os mensaleiros entenderam o recado.

03. A demissão de Cristóvam Buarque do Ministério da Educação.
Essa foi a gota d´água. Toda a vida política de Cristóvam foi voltada para a Educação. Ele deve ser considerado o primeiro pai do Bolsa-Família. Foi ele quem inventou o conceito de se repassar dinheiro a famílias pobres (e não leite, pão ou circo) em troca de contrapartidas sociais. O projeto do Fundeb é dele. Ele tem um plano para a educação. Mas foi demitido sumariamente, e de forma vergonhosa, por telefone, enquanto estava em viagem a Portugal. A razão era sua discordãncia com os rumos que o PT estava tomando. Rumos que levaram ao mensalão, à eleição de Severino Cavalcanti e à barganha por cargos no segundo mandato.

Lula se diverte, ri e brinca de ponto G com George Bush. Se ele estivesse tão indignado quanto a maioria dos brasileiros, seria melhor. Para ele e para o Brasil.

7.3.07

O JORNALISMO, POR NORMAN MAILER


"Nunca trabalhei como jornalista e não gosto dessa profissão. É um modo promíscuo de ganhar a vida.

"Assim como um advogado não tem um amor á verdade que se compare ao seu apego aos interesses de seu cliente, o repórter não tem respeito algum pela nuance. O sentido de uma situação não é o que ele explora, na verdade ele freqüentemente evita uma atmosfera, já que é difícil capturá-la num texto às pressas. Suas tentativas juvenis de procurar o espírito de um evento foram decapitadas anos atrás na mesa de um editor de texto; desde então ele foi adestrado a buscar fatos, ainda que invariavelmente os compreenda mal. É sutilmente incentivado, quando trabalha numa matéria, a depender de tudo, menos de sua escrita. É por isso que poucos repórteres escrevem bem.

"Na verdade, é pior que isso. Daqui a alguns séculos, a inteligência moral de outra época talvez contemple com horror a história das pessoas implantadas nas pessoas do século XX por meio da imprensa. Uma corrosão do cérebro coletivo é uma das conseqüências. outra é a deformação da consciência de qualquer líder cujas ações estejam constantemente nos jornais, pois ele foi obrigado a aprender a falar unicamente sob a forma de frases citáveis e autoprotetoras. Com o intuito de se comunicar com os comunicadores, ele renunciou a qualquer vestígio de uma filosofia pessoal."

Trecho do livro "O Super-Homem vai ao Supermercado" (Companhia das Letras).
Norman Mailer é escritor, nascido em Nova Jersey (EUA). Publicou ensaios, romances, novelas e reportagens. Ganhou dois prêmios Pulitzer.

4.3.07

LA REVOLUCIÓN NO SERÁ TELEVISIONADA...


... mas passa no YouTube. Esta é a primeira parte de um documentário produzido durante o golpe ocorrido na Venezuela em 2002, e que tirou Hugo Chávez do poder por 48 horas. Na ocasião muita gente comemorou:

"Caiu o falastrão" - revista Veja
"Isso é resultado das próprias ações de Chávez" - Ary Fleischer, porta-voz de George W. Bush
"Democracia não é só eleição" - Condoleezza Rice, conselheira internacional de Bush.

Dois documentaristas ingleses estavam em Caracas no momento do golpe, e mostram tudo. Mostram como, no mesmo dia, formaram-se duas passeatas, uma a favor e outra contra Chávez; mostram como os meios de comunicação apoiaram o confrontameto das duas, em frente ao Palácio Miraflores; mostram como atiradores de elite começaram a acertar partidários de ambos os lados (tiros na cabeça, certeiros); mostram como a televisão estatal venezuelana foi sabotada e tirada do ar na mesma noite; mostram como Chávez foi ameaçado a renunciar, sob o risco de ter o palácio bombardeado por militares insurgentes; mostram como no dia seguinte à prisão de Chávez, o "Bom Dia Brasil" local comemorou o golpe, louvando a participação decisiva das TVs privadas; mostram como o novo presidente empossado (Pedro Carmona, o Roberto Marinho deles) dissolveu TODAS as instituições venezuelanas num só discurso; mostram como o povo foi às ruas exigir a volta de Chávez; mostram como o Palácio Miraflores foi retomado por militares leais a Chávez, ovacionados pela multidão; mostram como as TVs, mesmo depois da retomada do palácio e da grande passeata que tomava Caracas, noticiavam que o golpe estava mantido e que as ruas estavam calmas, logo o novo presidente faria outro pronunciamento; mostram como Chávez foi encontrado dentro de um avião rumo a Miami.

É de arrepiar. Entenda porque Chávez insiste em dizer que Bush é o capeta encarnado. Veja como a TV pode manipular um país inteiro. E testemunhe como o povo pode reagir a isso.

Serviço: o documentário está em inglês, e dividido em 8 partes. Procure por "the revolution will not be televised".

3.3.07

O HOMEM QUE ENFRENTOU O RIO AMAZONAS NO BRAÇO



Martin Strel é esloveno, tem 52 anos e está atravessando o rio Amazonas a nado. São mais de 5.400 km de braçadas. Mais ou menos a distância de Recife a Porto Alegre. É uma aventura inédita, acompanhada por uma comitiva de mais de 40 pessoas, entre guias, médicos e jornalistas de todo o mundo.

Martin Strel vira estrela por onde passa, com sua roupa de neoprene, óculos de natação e uma estranha máscara que serve para proteger seu rosto do sol. Além da distância, Strel tem enfrentado a natureza selvagem do Amazonas. Calor de 40 graus (lembre que Strel vem do leste europeu, onde faz um frio dos diabos), água barrenta e a companhia de botos-rosa que nadam ao seu lado. Mas o que mais preocupa o aventureiro é o peixe candiru, que é atraído pela urina e pode entrar no corpo de um homem pelo orifício do pênis. Para tirá-lo, só com cirurgia. Daí usar roupa de neoprene num calor infernal.

Começou sua jornada em 1o de fevereiro, na cidade de Atalaya, no Peru, e deve chegar em Belém do Pará em meados de abril. Já fez metade da travessia. Com a ajuda da correnteza, nada mais de 90 km por dia.

Mas pra quê tudo isso?

"Quero provar para mim mesmo que posso conseguir mais que os outros, conquistar o impossível. Quero fazer algo que ninguém jamais fez."

A jornada de Martin Strel está sendo narrada em seu site oficial e no site da BBC Brasil.


28.2.07

A CIVILIZAÇÃO ESTÁ NA PRIVADA



"No mínimo um terço da população do planeta – uns 2,6 bilhões de pessoas – não sabe o que é um sanitário, uma latrina, uma fossa séptica, e faz suas necessidades como os animais, no mato, à beira de córregos e mananciais, ou em sacolas e latas que são jogados no meio da rua. E mais ou menos 1 bilhão utiliza águas contaminadas por fezes humanas e animais para beber, cozinhar, lavar a roupa e fazer a higiene pessoal. Isso faz com que pelo menos 2 milhões de crianças morram, a cada ano, vítimas de diarréia."

O parágrafo acima faz parte de um artigo do escritor peruano Mario Vargas Llosa, publicado na revista Piauí. Llosa analisa o Relatório de Desenvolvimento Humano da ONU, que no ano passado focou o problema do acesso ao saneamento básico. E mostra que a medida da civilização não está no acesso a celulares, internet, TV ou bens de consumo, mas no acesso à privada e a redes de esgoto. A ONU estabelece que todo cidadão tem direito a pelo menos 20 litros de água potável por dia. Não é o caso de pelo menos 20% da população que vive nos chamados países em desenvolvimento (a parte do mundo que não é nem a Europa, nem Japão nem Estados Unidos).

No Brasil, o problema está mais no tratamento de esgoto que no acesso à água potável. A média nacional de acesso ao esgoto está em 75%. A meta da ONU é que se chegue a 85% até 2015. Não parece difícil, mas a privada está longe de ser uma prioridade dos governantes: em toda a América Latina, só 14% dos excrementos humanos são, de alguma forma, tratados. Ou seja: 86% da merda que produzimos vai direto para rios e lagos, sem escalas. E aqui "merda" é usada no sentido literal.

Serviço:
O Relatório de Desenvolvimento Humano 2006 está aqui.

A revista Piauí está bombando. Além dessa e de outras reportagens excelentes, tem uma história em quadrinhos devastadora do Laerte, nosso orgulho nacional em matéria de nona arte. Clique na imagem para ler na íntegra.


27.2.07

KT TUNSTALL AND A CHERRY TREE

Ouvi essa música por acidente, e achei dugarai. É da mesma cantora de "Suddenly I See", que está estourada nas rádios.

AND THE OSCAR GOES TO...



"Os Infiltrados", um filmaço. Se você gosta de filmes policiais, compre um DVD pirata e assista agora mesmo. É um filme de caça aos ratos. Os ratos que estão infiltrados: um bandido na polícia, um policial na quadrilha. E os dois lados sabem que há um X-9 em suas fileiras. Só não sabem quem é. Algumas frases:

"Você já fingiu antes. Faça de novo. Por mim." - Martin Sheen, quando pede a Leonardo DiCaprio que se infiltre numa organização criminosa.

"Eu não sou da polícia!" - Leonardo DiCaprio, urrando enquanto Jack Nicholson esmaga seu braço com um martelo.

"Quando vocês vão pegar o Costello? O que vocês estão esperando? Ele me fatiar e alimentar os pobres? É isso que vocês estão esperando?" - Leonardo DiCaprio.

"Nós achamos que que Costello tem um espião na Unidade de investigações Especiais" - Mark Wahlberg.

"Pelo que eu me lembre, eu te dei o aviso e você não foi preso" - Matt Damon, para Jack Nicholson.

"Você tem algum infiltrado na gangue de Costello?"
"Talvez sim, talvez não. Talvez você vá se foder" - Mark Wahlberg.

"Por favor, me mate" - Matt Damon.
"Eu vou matá-lo" - Leonardo DiCaprio.

"Os Infiltrados" rendeu o primeiro Oscar da carreira de Martin Scorcese, depois de seis indicações. É irônico que um dos cineastas mais originais da América seja reconhecido por um filme "remake", copiado tal e qual "Conflitos Internos", de Hong Kong (menos o final). "Conflitos Internos" teve duas continuações. Será que o Oscar vai animar Scorcese a continuar a saga?

25.12.06

JAMES BROWN, SEX MACHINE (1933-2006)



Morreu James Brown. Entre suas invenções, estão o funk e o soul, além de um estilo único de incendiar as platéias. Os títulos de suas músicas dão conta de como ele viveu sua vida: I Feel Good; Sex Machine; Papa´s Got a Brand New Bag; Say It Loud – I´m Black n´I´m Proud; Ain't It Funky Now; Shake Your Money Maker.

James Brown nunca escondeu quem era: beberrão e maconheiro, foi preso diversas vezes, por diversos motivos. Roubou carros, usou drogas, fugiu da polícia, sonegou impostos e bateu na mulher. Aliás, em algumas das mulheres com quem foi casado. Pai musical do Tim Maia, começou cantando na igreja, logo após sair da primeira cana que puxou. Do soul gospel, fez o funk, ritmo que criou diversos galhos, do rap até o funk carioca que se ouve hoje. Nunca desprezou sua influência, e participou ativamente dos movimentos negros nos anos 1970.

Aos 73 anos, no dia de Natal, Brown morreu após uma consulta ao dentista. Nesse tempo, fez valer o título que deu a si próprio: Soul Brother Number One.

23.12.06

COLORADO CAMPEÃO DO MUNDO

A cidade de Yokohama, no Japão, abrigou o Jogo do Século. Internacional de Porto Alegre 1; Barcelona 0. Da linha de fundo da defesa, Vargas manda um chutão pra frente, Adriano Gabiru cabeceia, Luiz Adriano também, nos pés de Iarley. Já na intermediária do Barcelona, Iarley pisa na bola e o zagueiro Puyol passa batido. Chegam Rafa Márquez e Belleti para defender. Para atacar, pela direita e pela esquerda, chegam Luiz Adriano e Adriano Gabiru. Gabiru aponta para seus pés. Iarley passa para ele. Belleti cai no chão. Gabiru aponta e chuta, o goleiro Vasquez toca a bola, que passa, quica no chão e estufa as redes.

Foi esse o gol que derrubou o todo-poderoso Barcelona, campeão da Champion´s League e vice-campeão do mundo. Foi esse gol que fez do Inter CAMPEÃO DO MUNDO. Contra todos os prognósticos, contra toda a secação, contra Ronaldinho Gaúcho, o melhor jogador pipoqueiro do Mundo. Ao final do jogo, Ronaldinho chorou. Como não fez quando perdeu a Copa. Quando o Barcelona recebeu as medalhas de prata, os jogadores a tiraram do peito imediatamente. Viram Fernandão erguer a taça do mundo de peito limpo.

Clemer, Índio, Ceará, Alex, Edinho, Fabiano Eller, Hidalgo, Wellington Monteiro, Vargas, Fernandão, Iarley, Alexandre Pato, Luiz Adriano, Adriano Gabiru e Abel Braga. Protagonistas do maior torneio do maior esporte do mundo. Campeões do Mundo. Parabéns, Colorado.

Dia 17 de dezembro de 2006. Esse dia já passou, mas a emoção que trouxe acompanhará todo o resto desta vida.

4.12.06

BRASIL CAMPEÃO DE VÔLEI: UFANISMO E SUBSERVIÊNCIA CAMINHAM JUNTOS

Muito já se disse sobre o futebol ser o ópio do povo. Como apanhamos na Copa do Mundo, mais uma vez da França, serve o vôlei. Jogos de madrugada, ídolos desconhecidos, as diversidades não importam. Somos bicampeões mundiais de vôlei, e isso já serve para os ufanismos momentâneos e para a costumeira análise do caráter nacional a partir do esporte (nesse caso o vôlei, porque fomos campeões. E se tivéssemos sido vice?).

A Sportv, filha da Globo e herdeira de sua missão de promover o patriotismo e unidade nacional por meio do esporte (circensis?), veiculou uma matéria de alto cunho sociológico, narrada por Léo Batista: a seleção de vôlei não apenas ganhou o campeonato mundial, mas deu um exemplo de cidadania à nação. Mostrou disciplina, união, espírito de equipe, humildade num país onde grassam a ganância, a picaretagem e o favorecimento.

Campeã, a seleção de vôlei virou exemplo de cidadania, ética e compostura. Falou-se em dois brasis: o Brasil do vôlei e o Brasil real. “Quando esses dois Brasis vão se unir?”, perguntou Léo Batista. Faltou perguntar ao PSDB quando Bernardinho será lançado candidato à Presidência da República. Não será esse o “gerente” que o Brasil precisa?

A matéria do Sportv quer mobilizar os espectadores por meio da vitória do vôlei, não por meio da derrota na política. Por quê? Porque uma coisa não tem nada a ver com a outra. Ou seja, não oferece risco a ninguém. Fala bonito sem dizer nada, mas usando imagens emocionantes.

O jornalista Reinaldo Azevedo foi criticado em seu blog por uma afirmação certeira: “Bernadinho tem muito a ensinar... sobre vôlei”. Infelizmente, é isso: temos a melhor equipe de vôlei do mundo. E isso só é importante para o vôlei brasileiro. Torcer pelo vôlei é mais fácil e gratificante que cobrar punição a mensaleiros e sanguessugas – ou mesmo lembrar seus nomes. Deve ter mais gente lembrando que o Giba fuma unzinho do que gente lembrando que João Paulo Cunha recebeu 50.000 reais do valerioduto.

Nesta semana, ganhamos o vôlei mundial. Mas continuamos a perder a esperança a cada dia que passa. Há muito tempo.

29.11.06

BAIXIO DAS BESTAS: PERNAMBUCO FALANDO PARA O MUNDO
O filme campeão do Festival de Cinema de Brasília foi “Baixio das Bestas”, do pernambucano Cláudio Assis. Na hora da premiação, levou mais vaias que aplausos. Teve gente que achou trash, sórdido, que fetichiza a violência. A imprensa ficou com “polêmico”. É tudo isso, mas antes de serem atributos do filme, são atributos da realidade que o filme quer mostrar, a Zona da Mata de Pernambuco, onde se vive de cortar cana, beber, tocar maracatu e putaria. Putaria da grossa e sem limites.

O filme abre com um velho de bengala postando a filha (15, 14, 12 anos?) em pé atrás do postos de gasolina. Desnuda a menina e senta ao seu lado. A câmera abre e mostra a platéia de homens admirando a menina, nua, alguns se masturbando. Suas vidas cruzam com cortadores de cana, tocadores de maracatu, prostitutas e boyzinhos putaneiros. Personagens típicos do interior de Pernambuco. Típicos porque existem, aos montes. Os diálogos, em planos longos, dão a exata dimensão dos personagens:

“O movimento tá bom hoje?” – o velho, perguntando à dona do posto antes iniciar a apresentação da menina.

“Cadê a manteiga? Eu quero é cu!” – Cícero, um dos boyzinhos, no prostíbulo.

“Ele é pobre, mas é feliz” – tocador de maracatu, sobre o personagem que trabalha cavando fossa.

“A pobreza vai socializar o mundo.” – Everardo, um dos boyzinhos.

“Você não vai virar uma rampeira de beira de estrada como a sua mãe!” – o velho, reprovando a filha após ela ter sido estuprada.

“O bom do cinema é que a gente pode fazer o que a gente quiser.” – Everardo.


Ressalte-se, diálogos em perfeito sotaque e vocabulário pernambucanos. Nada forçado, nada esteriotipado. Caio Blat fala exatamente como fala qualquer garoto pernambucano. Merecia um Oscar só pelo sotaque, muitíssimo bem-trabalhado.

A cena que é a menina dos olhos de Cláudio Assis mostra um cortador de cana dobrando a cana para beber o suco. Uma cena que não tem nada a ver com a história, mas mostra como é o dia-a-dia na Zona da Mata. Há muitas dessas cenas de cotidiano, que mostram qual o contexto e quem são os personagens (como a mãe de Cícero que sempre o acorda no sofá da sala, sofrendo de ressaca).

E as cenas que chocaram tanto assim o público? Everardo chutando a cabeça de uma puta que não queria participar da suruba, a menina desnuda atrás do posto, os boyzinhos batendo punheta, bebendo e fumando maconha, o estupro da menina.

Cláudio Assis se mostrou surpreso com tantas críticas às imagens fortes do filme. “Estão matando gente todo dia. Isso passa às dez da manhã na TV e ninguém reage. Ninguém reage! E agora vem dizer que meu filme é violento?!? Tenha paciência!"
Cláudio Assis mostra o desenrolar de sua história, com tudo o que ela tem de violento e chocante. Se não mostrasse, teria que fazer outro filme. Seu maior mérito foi fazer um filme real, sem concessões, sem exageros, sem julgamentos. É demais para o público? Está nos cinemas o filme “Happy Feet – O Pingüim”. Agora, não caia na besteira de viajar de carro pelo sertão pernambucano.

7.11.06

SADDAM, O CONDENADO


Artigo fundamental de Robert Fisk, publicado na Folha de S. Paulo:
"Assim, o antigo aliado dos Estados Unidos foi sentenciado à morte por crimes cometidos quando era o melhor amigo de Washington no mundo árabe. Os americanos sabiam tudo sobre suas atrocidades. Mas ontem lá estávamos nós, declarando que a sentença representava "um grande dia para o Iraque", segundo a Casa Branca.

O desastroso inferno que infligimos ao Iraque é tão horrível que nem mesmo podemos sustentar essa afirmação. A vida é pior, agora. Ou melhor, a morte é um destino mais freqüente para mais iraquianos do que era no caso dos curdos e xiitas nos tempos de Saddam. Por isso, não podemos alegar superioridade moral nenhuma. Nós apenas praticamos abusos sexuais contra prisioneiros, assassinamos alguns suspeitos e praticamos alguns estupros, além de termos invadido ilegalmente um país, o que custou ao Iraque apenas 30 mil vidas, nos cálculos de George W. Bush.

Saddam era muito pior. Não seremos levados a julgamento. Não seremos enforcados. "Allahu Akbar", bradou o homem execrável. "Deus é grande." Não deveria nos surpreender. Foi ele que insistiu que essas palavras fossem inscritas na bandeira iraquiana, a mesma bandeira que hoje tremula sobre o palácio do governo que o condenou depois de um julgamento no qual o genocida iraquiano foi formalmente proibido de descrever sua relação com Donald Rumsfeld, hoje secretário da Defesa de George W. Bush. Lembram-se daquele aperto de mão? E Saddam tampouco pôde falar do apoio que recebeu de George Bush pai.

Eis algumas das coisas sobre as quais Saddam não pôde depor: vendas de produtos químicos, tão repulsiva e que tanto incomodava Bush filho e lorde Blair de Kut al Amara quando decidiram depor Saddam em 2003 -ou terá sido 2002? Em 25 de maio de 1994, a Comissão de Assuntos Bancários, Habitação e Assuntos Urbanos do Senado americano divulgou relatório sobre as exportações de produtos químicos e biológicos de possível uso bélico pelos Estados Unidos ao Iraque.

Entendo perfeitamente que não era possível permitir que Saddam falasse a esse respeito. John Reid, secretário do Interior britânico, disse que o enforcamento de Saddam era "a decisão soberana de um país soberano". Graças a Deus ele não citou as 200 mil libras em tiodiglicol, um dos dois componentes do gás mostarda, que exportamos ao Iraque em 1988, e outras 50 mil libras da mesma substância vendidas em 1989.

Também enviamos cloreto de tiodiglicol ao Iraque em 1988, ao preço de apenas 26 mil libras. Eu sei que esse componente poderia ser usado para produzir tinta para esferográficas e corantes para tecidos. Mas trata-se do mesmo país, o Reino Unido, que oito anos depois se recusaria a vender vacinas contra difteria às crianças iraquianas, sob a alegação de que elas poderiam ser usadas para produzir armas de destruição em massa.

Mas agora demos ao povo iraquiano pão e circo, o enforcamento de Saddam. Impusemos justiça ao homem cujo país invadimos e fizemos se dividir. O estranho é que o Iraque hoje está tomado por assassinos, estupradores e torturadores.

Muitos trabalham para o atual governo, que apoiamos. Eles não serão julgados. Nem enforcados. Essa é a extensão do nosso cinismo. Da nossa vergonha.

Em algum momento a justiça e a hipocrisia já estiveram unidas de forma tão obscena?"

30.10.06

LEITURAS DA VITÓRIA (E DA DERROTA)

O melhor palpite é o que se dá depois do jogo. Alguns veiculados na imprensa (clique nos links para ver os artigos):

Diogo Mainardi: mostrou uma irritação inédita no Manhattan Connection de domingo. Logo ele, que leva tudo pra avacalhação? Seu recado: "O povo escolheu Lula. Problema deles."

Paulo Moreira Leite: entrou na alma do eleitorado. A eleição de Lula não foi a da esperança, mas a da cobrança. Ver o homem que o povo pôs lá cair assim seria desistir de toda aquela esperança de 2002. Seria desistir de sua própria esperança. Lula só não foi eleito no 1o turno porque o povo queria dar uma lição nele, mostrar que está atento.

Reinaldo Azevedo: passou a campanha repetindo que votar em Alckmin era imperativo ético. Derrubar Lula e os 40 ladrões era o que importava. Vitória de Lula, lembrou que não se importa com que o povo pensa. "A democracia sempre foi salva pelas elites e posta em risco justamente pelo “povo”, essa entidade. Vai acontecer de novo. Lula, reeleito, tende a levar o país para o buraco." Golpismo? Reinaldo avisou que era piada, e quem não apertar a tecla SAP para entendê-las, que pare de ler seu blog.

Franklin Martins: "Outros fatores também pesaram na decisão do eleitor, como o carisma do Lula e os erros da oposição, mas a principal explicação para a expressiva vitória de ontem está na inclusão social. Ela é a grande vitoriosa nas urnas."

Paulo Henrique Amorim: foi uma vitória ideológica. Direita vs. Esquerda; Trabalhismo vs. Conservadorismo.

Ricardo Noblat: diga adeus ao terceiro turno, e digam adeus a uma oposição forte a Lula no Congresso. O PSDB está recolhendo os pedaços.

Mino Carta: Temos a tradição do voto de cabresto, mas a eleição de 2002, cujo resultado esta de 2006 confirma, a desfazem. O povo brasileiro fez sua escolha à revelia daqueles que desde sempre pretendem enganá-lo". O povo quer Lula, e não há mais quem o impeça de querê-lo.

Ressalte-se que as escolhas de Diogo Mainardi, Mino Carta e Reinaldo Azevedo foram expostas há muito tempo. Têm todo o direito de comemorar ou de espernear. Já a Veja... vamos ver em que galho vão se segurar.

REQUIÉM PARA ALCKMIN

Alckmin, o Geraldo, conseguiu uma proeza: perdeu 2,5 milhões de votos em 29 dias, período que separou o 1º do 2º turno. Só em São Paulo, onde obteve a maior vitória contra Lula no 1º turno, 230.000 pessoas desistiram de votar no Geraldo. O que deu errado? Ele mesmo.

Alçado candidato do PSDB em março, passou o tempo todo repetindo que a campanha só começava com o horário eleitoral na TV, em setembro. Não apareceu, não falou, não fez propostas, não criou factóides, não tirou foto montado em burro, nem comendo buchada de bode, muito menos ao lado de modelos sem calcinha – nada. Só aparecia nas reportagens sobre pesquisas eleitorais, sempre mal na fita. Quando o programa estreou na TV, trazia uma única certeza: Alckmin, o Geraldo, acha que o Brasil é São Paulo. Enquanto Lula mostrava negros, índios, pobres, nordestinos, nortistas, gaúchos, Alckmin só mostrava paulistas e os programas que implementou no estado. Nenhuma palavra sobre programas que ele pretendia implantar no Brasil.

Depois do 1º turno, o Geraldo se recolheu. Passou mais uma semana calado, deixando seus novíssimos eleitores sem ter o que comentar nos bares e esquinas da vida. Reapareceu no debate da Band, estilo Mike Tyson. Desferiu várias vezes o que julgava ser seu golpe mortal: “Lula, de onde vem o dinheiro?” Muita gente do PSDB aplaudiu de pé: o Geraldo finalmente vestiu o manto do anti-Lula. Ninguém mais agüentava ouvir sobre sua juventude em Pindamonhangaba.

Mas a febre durou pouco. O Geraldo resolveu voltar a ser ele mesmo, e ainda cagou na cabeça do PSDB do Rio de Janeiro e da Bahia, ao aceitar o apoio de Anthony Garotinho e Antônio Carlos Magalhães. Em vez de ganhar aliados de outros partidos, perdeu-os dentro do PSDB. E continuou a dizer rigorosamente nada sobre o que faria se fosse eleito.

Fora ser o anti-Lula, o Geraldo não foi mais nada. E nem isso fez direito. Atacava a corrupção no governo Lula, mas mal falou sobre o mensalão. Provavelmente para poupar gente do seu partido envolvida com Marcos Valério, o carequinha. Preferiu repetir diariamente a história da compra do dossiê – que não é crime.

A revista Veja perguntou a 90 eleitores de oito estados seus motivos para votar em Alckmin e em Lula. Dos que votam em Lula, 89% justificam sua decisão citando realizações do presidente. Já dos que votam em Alckmin, 60% o escolheram simplesmente porque rejeitam Lula. Não porque gostem de Alckmin. Em 1989, se dizia que o Brasil elegeria um poste para não eleger Lula. Deu certo com Collor. Não deu com Alckmin, o Geraldo.

29.10.06

VEJA DIVIDIU O BRASIL EM DOIS: LUTA DE CLASSES?

A revista Veja dividiu o Brasil em dois. Um que “busca a riqueza e o crescimento”, outro “arcaico e clientelista”. Um que está no Sul e Sudeste, outro no Norte e Nordeste. Um que vota em Alckmin, outro em Lula. Simples assim.

Veja usou um mapa para comprovar sua tese: os municípios em que Lula venceu no 1o turno estão concentrados no Nordeste e no Norte (mais pobres e menos informados); Alckmin venceu no 1º turno nos municípios do Sul e do Sudeste (mais ricos e mais informados).


Mas, segundo Veja, a divisão não é só sócio-econômica: é também moral. Na edição seguinte à realização do 1º turno, a “Carta ao Leitor” informa que a disparada de Alckmin no que seria a reta final da disputa indica que a maioria do eleitorado “não quer um país onde as autoridades responsáveis pela manutenção das leis e pelo respeito à ética são as primeiras a quebrá-las”. Afinal, o Brasil que votou em Lula está “resignado às práticas de corrupção e habitado por uma população que, premida pela miséria, tem como única perspectiva de vida usufruir os benefícios imediatos proporcionados por projetos assistencialistas”.

De acordo com essa análise, a vitória de Lula representa uma escolha do Brasil arcaico imposta ao Brasil moderno. E lembre-se: o Brasil moderno recolhe mais de 80% dos impostos federais. Esse dado foi capa do jornal Folha de S. Paulo na quarta-feira. Poderia ser manchete em qualquer dia de qualquer ano, mas só mereceu tamanho destaque às vésperas da eleição presidencial.

O apartheid de Veja é moral, econômico e geográfico. E burro. Números do Datafolha que o verdadeiro Brasil rico e bem-informado “lulou” nessas semanas entre o 1º e 2º turnos:

Entre os eleitores com renda familiar mensal acima de 3.500 reais, 53% votam em Alckmin, 43% em Lula. Alckmin leva vantagem, mas está longe de ser uma vitória esmagadora.

Entre os eleitores com escolaridade superior, 44% votam em Lula. 50% em Alckmin. Quase empate técnico.

Além disso, Alckmin perdeu votos em todos os estados do “seu” Brasil, enquanto Lula aumentou sua votação expressivamente. À exceção do Rio Grande do Sul, onde Alckmin manteve o número de votos do 1º turno. E onde Lula teve 40% a mais de votos.


Não foi o Brasil “arcaico e clientelista” que elegeu Lula. Foi o Brasil. País que ostenta o título de vice-campeão mundial de má-distribuição de renda. Má-distribuição que pode ser verificada tanto em Roraima como em Pernambuco como em São Paulo como em Porto Alegre. Em todos esses lugares há ricos morando em casas suntuosas localizadas a poucos metros de favelas. Donald Trump, dono de 2,9 bilhões de dólares, profetizou: “Os ricos vão ficar mais ricos e os pobres vão ficar mais pobres. Eu já escolhi de que lado eu quero estar”. Parece que Veja também.

26.10.06

ALCKMIN, O ILUMINADO


O Geraldo surpreendeu todo mundo. Muito se falou em "cristianizar" o candidato do PSDB, porque, contra Lula, ninguém teria chance. Lutou desde o começo do ano para ser o candidato do partido. Conseguiu a indicação no dia seguinte em que José Serra divulgou publicamente que queria a vaga para concorrer à Presidência pelo PSDB. O Geraldo começou devagar, sendo desconhecido por 50% do eleitorado. Depois do horário eleitoral gratuito, melhorou seus números, mas pesquisas mostravam que não ia dar pra levar pro 2o turno. No dia da eleição, a surpresa: 40 milhões de votos para o Geraldo. Para se ter uma idéia, José Serra, já no 2o turno contra Lula em 2002, conseguiu 35 milhões de votos.

O Geraldo lutou contra o desconhecimento do público, números desfavoráveis e companheiros de partido que preferiram ou apoiar Lula ou ao menos ignorar sua candidatura. José Serra e Aécio Neves, dois dos principais nomes do partido, falaram pouco, quase nada, em sua defesa. Quanto a FHC, esse era melhor que ficasse de lado.

Mas ele chegou lá. E agora tenta a vitória final, novamente desacreditado pelas pesquisas (perde por 20 pontos percentuais de diferença) e com falta de apoio expressivo. No dia do debate da TV Record, José Serra não foi aos estúdios acompanhar seu candidato. Preferiu assistir a um filme de Cao Hamburger, diretor do programa "Castelo Rá-Tim-Bum". Será que ele chega lá?

O Geraldo tem aparecido muito, mas fala pouco. Entre seus eleitores, não se acha ninguém capaz de elencar suas propostas. "Alckmin parece ficar desorientado quanto ao que dizer. Parece que tudo o que lhe ocorre é pedir ao eleitorado um cheque em branco para os próximos quatro anos, pois não diz nada que seja esclarecedor – e não deixa os outros dizerem. Alckmin, sem o dossiê ou uma provocação terrorista do PT, parece incapaz de alçar-se acima de dolorosas platitudes", escreve o editor da revista Veja em Brasília.

O Geraldo é o anti-Lula da vez, talvez sua melhor encarnação, porque só representa isso. Não tem idéias, nem apoio político próprio. Está longe de Serra e FHC, o máximo de apoio que conseguiu no 2o turno foi o de Garotinho. É a tábua de salvação para quem quer tirar Lula de lá. Será que o Geraldo chega lá?

15.10.06

ISRAEL: A TERRA PROMETIDA É FEITA DE SANGUE E FOGO

“A 14 de maio de 1948, se confirmaram as previsões dos profetas judeus. Segundo essas predições, o povo hebreu seria condenado a 2.000 anos de vida errante e miserável, findos os quais deveria regressar à Palestina onde, depois de grandes dificuldades , encontraria finalmente a paz". Essa declaração foi uma das primeiras oficiais do recém-formado Estado de Israel. Nesse mesmo dia 14 de maio de 1948, dia de sua fundação, Israel enfrentou sua primeira guerra contra nações árabes, e continua na mesma luta até hoje. Quase 60 anos depois, a paz não veio.

Todos os dias os telejornais mostram atentados, bombardeios e tiroteios envolvendo israelenses e palestinos. Judeus e muçulmanos. Ao contrário do que parece aos olhos do telespectador ocasional, essa guerra tem menos a ver com religião do que com terra. Uma terra do tamanho do estado de Alagoas, pouco mais de 22.000 km2.


Invasão israelense em Ramallah (Cisjordânia), 2002

Essa terra era o enclave britânico da Palestina. Depois da 1ª Guerra Mundial, os Aliados dividiram o Oriente Médio: Iraque, Síria, Turquia, Líbano, Jordânia e Palestina. A Inglaterra ficou com essa última em 1922, onde viviam mais de 650.000 árabes e 56.000 judeus. Em 1946, a proporção era de 1.000.000 de árabes para 700.000 judeus. Essa migração em massa de judeus era o movimento sionista, os judeus de volta à terra prometida.

O movimento sionista começara a se organizar em 1897, e ganhava força, prestígio e dinheiro da comunidade internacional. O Barão de Rothschild, riquíssimo banqueiro londrino, era um de seus expoentes. Judeus de todo mundo afluíam à Palestina, comprando terras inférteis e organizando os kibutz, fazendas coletivas socialistas. As terras eram propositalmente compradas em pontos espalhados da Palestina, demarcando as fronteiras do que seria o futuro país judeu.

Atentado terrorista em Tel-Aviv (Israel), 2000

A Inglaterra abandonaria o comando da Palestina em 1948, já recomendando a divisão do território em dois: um árabe e outro judeu. Os árabes, que ocupavam a terra desde o ano 638, não aceitaram a divisão. Mas assim foi feito. O resultado foi a guerra, a primeira. De um lado, os árabes palestinos, apoiados por Egito, Síria, Líbano e Jordânia. Do outro, os judeus, que treinaram no exército britânico e receberam armas da Tchecolslováquia. Mesmo em menor número, porém mais organizados e preparados há mais tempo para o conflito, os judeus não só estabeleceram o Estado de Israel como ampliaram suas fronteiras, eliminando o Estado Palestino e deixando mais de 800.000 palestinos refugiados nos países vizinhos.

Outras guerras se seguiram como a de 1967 (quando Israel tomou ainda mais territórios dos vizinhos) e a do Líbano. Hoje, estima-se em 3.000.000 os refugiados palestinos, vivendo na Cisjordânia e na Faixa de Gaza, territórios mantidos sob vigilância dos “postos de controle” do exército israelense.

Guerrilheiros da Brigada de Mártires Al Aqsa


Pode-se resumir assim: judeus ocuparam a Palestina árabe, criaram seu estado judaico, os árabes reagiram com guerras e as perderam, os palestinos ficaram sem país, mantém sua luta por meio dos ataques terroristas, mas são diariamente bombardeados por mísseis, bombardeiros e tanques que invadem e destroem suas já precárias cidades. E reagem com mais homens-bomba. É tudo o que têm. Porque a paz há muito tempo não parece uma opção, para nenhum dos dois lados.